terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Morin e a educação do presente

Ensaios sobre a miséria da teoria[1] – 2

Este texto foi escrito em 2002. Nesse momento eu procurava dar alguns retoques na experiência que vivi no Amapá e, dentre elas, a leitura do livro de Morin “Os Sete Saberes necessários à Educação do Futuro” havia deixado suas marcas. O resultado mais acabado daquela época está, para além dos documentos publicados pelo próprio governo do Amapá, registrado num artigo que intitulei “O significado de Escola” e que foi publicado, alguns anos depois, na revista eletrônica Construção Psicopedagógica (vide bibliografia). Como se verá, é um texto inacabado e, salvo se a necessidade de retomá-lo se tornar demasiadamente premente, assim ele deverá continuar. No momento tendo a imaginar que não há a menor necessidade de continuá-lo. Se qualquer um dos meus leitores se interessar pelo livro aqui referenciado e, a partir dele, compreender o significado dos discursos que ainda hoje povoam o imaginário dos que discutem educação escolar, creio que terei dado conta da tarefa que me propus, certa vez, numa das conversas que tive com Edson Martins à beira do canal norte do Amazonas.

Morin e a educação do presente

Há, como se verá, intenções muito diferentes entre um autor e um leitor. O primeiro quer conquistar o segundo, convencê-lo, leva-lo a percorrer os mesmos caminhos – só que agora já mais aplainados – e assumir os mesmos posicionamentos. Por outro lado o segundo resiste, sabe por experiência que um conhecimento novo o obrigará a redimensionar os antigos, colocar suas certezas sob o crivo da dúvida, compartilhar com o autor idéias, experiências e conclusões que não são necessariamente suas. O processo de aprendizagem exige esforço, despojamento, desejo de partilhar, o que, bem o sabemos, não são “virtudes” que estamos sempre dispostos a cultivar.
Digo isso porque, no presente caso, desempenhei um duplo papel. Fui leitor e, como tal, resisti. Ler o texto de Morin exige um esforço monumental de reordenamento de valores, o que nem sempre estou disposto a fazer e, mais que isso, ao perceber minha resistência identifico a possibilidade de estar amarrado a preconceitos, a um ideário ultrapassado, a não passar, no final das contas, de um leitor superado pela incapacidade de ler (um analfabeto, portanto) os novos códigos, as novas linguagens e, com elas, acompanhar os novos procedimentos lógicos que teimam em se consolidar nas últimas décadas.
Como leitor, posso afirmar, o texto de Morin causou-me mais que uma simples discordância: causou-me perplexidade. Depois de mais de duas décadas trabalhando, de uma maneira ou de outra, com os dois fundamentos deste texto moriniano – a educação e a epistemologia – a simples condição de mergulhar em um texto e torna-lo uma ferramenta no processo de reconstrução de minhas próprias reflexões não me satisfizeram. Passei, então, da condição de leitor para a condição de autor. Resolvi escrever, para socializar, os diálogos que fui construindo à medida que lia, vagarosamente, parágrafo por parágrafo, o livro intitulado “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro”, publicado no Brasil pela Cortez Editora (São Paulo), em associação com a UNESCO, no transcorrer desse último ano do nosso milênio.
Sair da condição de leitor para de autor envolveu um conjunto de preocupações relativamente amplo. A primeira delas se refere ao fato de ser Morin um dos mais importantes pensadores das últimas décadas o que dificulta, sobremaneira, a construção de uma legitimidade pública para quaisquer comentários que não venham na direção de sua pura e simples exaltação; a segunda é que um texto desse tipo exige algum esforço de construção, o que, nesse momento de minha vida, significa ter de coloca-lo como mais uma tarefa em meio a tantas outras, prorrogando demasiadamente o processo de elaboração. De qualquer maneira, seja como seja, dei início à tarefa. Falta, ainda, nesse momento, saber que resultados sua execução obterá.

O plano da obra


Como já afirmei a leitura do texto de Morin me obrigou a desenvolver um diálogo com cada um de seus parágrafos, isto é, a elaborar perguntas, a construir respostas, a procurar os fundamentos de tais respostas no texto do próprio Morin e assim por diante. O presente texto, por sua vez, seguirá um caminho um pouco diferente do processo que o gerou. Para aqueles que possuem ou já leram “Os sete saberes...” será fácil verificar que, para além dos textos introdutórios (o texto da “orelha”, o da quarta capa, os agradecimentos e a apresentação da edição brasileira[2]), a obra, propriamente dita, tem seu início com um prólogo, onde o autor resume suas intenções usando três parágrafos bastante elucidativos[3] para cada um dos sete capítulos que compõe o livro.
Para dialogar com a obra como um todo, no entanto, os parágrafos do prólogo não são suficientes, mas, como foram elaborados para serem uma espécie de índice com um ementário, resolvi usar o próprio prólogo como referência. Alguns de seus parágrafos, no entanto, nos obrigará a evidenciar afirmações que só se encontram no corpo principal do texto. Na medida em que achar necessário vou reproduzi-los e poderemos ampliar o espectro de variáveis que, espero, nos permitirá dialogar mais aprofundadamente com o ideário moriniano. Para que o leitor não se perca no sistema de referência cada citação terá, ao seu final e entre parênteses, o número da página de onde foram tiradas. No caso de citações de outras obras o processo seguirá as normas comumente usadas para textos acadêmicos e preconizadas pela ABNT.
Dadas as devidas explicações nada mais me cabe que ir diretamente ao texto, explicitando ao leitor os elementos que geraram o debate.
Antes de iniciar o ementário que identifica os conteúdos que serão discutidos no transcorrer do livro, Morin nos apresenta três parágrafos que procuram sintetizar os objetivos de sua obra. Vamos à sua leitura:
“Este texto antecede qualquer guia ou compêndio de ensino. Não é um tratado sobre o conjunto de disciplinas que são ou deveriam ser ensinadas; pretende, única e essencialmente, expor problemas centrais ou fundamentais que permanecem totalmente ignorados ou esquecidos e que são necessários para se ensinar no próximo século.
Há sete saberes “fundamentais” que a educação do futuro deveria tratar em toda sociedade e em toda cultura, sem exclusividade nem rejeição, segundo modelos e regras próprias a cada sociedade e a cada cultura.
Acrescentemos que o saber científico sobre o qual o texto se apóia para situar a condição humana não só é provisório, mas também desemboca em profundos mistérios referentes ao Universo, à Vida, ao nascimento do ser humano. Aqui se abre um indecidível, no qual intervêm opções filosóficas e crenças religiosas através de culturas e civilizações.” (13)

As intenções são, para um primeiro olhar, suficientemente claras. São explicitadas, num primeiro movimento por uma negativa (já que não é guia nem compêndio nem tratado sobre disciplinas) e, num segundo, por uma assertiva: evidenciar “problemas centrais” “totalmente ignorados ou esquecidos” “para se ensinar no próximo século”.
No parágrafo seguinte ficamos sabendo que esses problemas centrais totalmente ignorados ou esquecidos são, justamente, os “sete saberes”, suficientemente sábios para servirem de parâmetro a “toda sociedade e em toda cultura”.
Os dois parágrafos já merecem uma primeira parada para o questionamento (creio que poucos foram os textos que li que, em dois parágrafos, já expressavam consistência suficiente para a elaboração de perguntas).
Ø  Que saberes serão esses que estão totalmente esquecidos por todas as sociedades e todas as culturas? Por que será que só Morin veio a lembrar-se deles?
Ø  Quando Morin fala de “próximo século” está se dirigindo a quem? À sociedade que marca seus anos pelos parâmetros do cristianismo ocidental? Mas, não chega a afirmar o autor que está se dirigindo a todas as sociedades e culturas?
Ø  Como será que Morin chegou a este número de saberes? Porque sete e não oito ou outro número qualquer? Será que ele parou para observar milhares e milhares de saberes e, ao selecionar os mais importantes, coincidentemente o resultado foi sete? Quais teriam sido os critérios de escolha? Será que só estaremos nos relacionando com saberes que não são exclusivos (de quem?) nem rejeitáveis e, portanto, passíveis de serem adequados “segundo modelos e regras próprias a cada sociedade e a cada cultura”?[4]
A esperança é que o autor, no mínimo, nos dê pistas para construirmos respostas. É cedo ainda para obtê-las. Tenhamos paciência.
O terceiro e último parágrafo desse intróito acrescenta informações sobre a provisoreidade e o caráter misterioso do saber científico sobre o qual o autor se apóia. A última frase, por sua vez, já parece exercitar esse clima de mistério, pois ao afirmar que “aqui se abre um indecidível” (o itálico é do original) outras dúvidas são passíveis de serem levantadas, já que o neologismo nos permite inferir que o autor está se defrontando com algo que ele não pode decidir e esse algo é, justamente, “opções filosóficas e crenças religiosas”. Estaria Morin nos avisando que, o que leremos daqui para frente é um texto fundado no princípio da neutralidade? Estaríamos retornando ao positivismo clássico? Gostaria de deixar essa última dúvida como pura tolice de minha parte, pois para um autor tão ligado ao pensamento contemporâneo confundi-lo com os positivistas é pura má vontade de minha parte. Ficam então os comentários e questões aqui apontados imediatamente denunciados como suspeitosos e, nesse sentido, só poderão ser resgatados se o texto principal assim nos obrigar.
“Os sete saberes necessários.”

“Capítulo I : as cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão”

Ø  “É impressionante que a educação que visa transmitir conhecimentos seja cega quanto ao que é o conhecimento humano, seus dispositivos, enfermidades, dificuldades, tendências ao erro e à ilusão, e não se preocupe em fazer conhecer o que é conhecer”.(12/13)

Realmente... é impressionante. E o é por duas variáveis possíveis: a primeira é aquela que nos permite afirmar que Morin tem razão, isto é, que os profissionais em educação desconhecem o processo de construção do conhecimento e não lhe infere nenhum sentido ou significado. A variável seguinte é que, realmente, é impressionante que Morin nunca tenha se debruçado para verificar o volume de discussão acumulado, somente nos últimos cem anos, e que gerou campos específicos do conhecimento como a pedagogia, a psico-pedagogia, a didática e a psicologia e que se associa diretamente a desvendar o significado da dúvida.
Não é possível, de fato, fazermos nenhuma das duas afirmações. De um lado porque não é verdadeiro o fato de não haver, no campo da educação, reflexões sobre o processo de construção do conhecimento e, segundo, porque não seria razoável imaginar que Morin desconheça esse fato. Então, como resolver o problema? Creio que a única maneira seria afirmar que o primeiro parágrafo do sumário não tem a intenção de afirmar absolutamente nada de realmente consistente. Mas, aí, uma outra dúvida ficará para ser resolvida mais à frente: será, realmente, possível que um intelectual da envergadura de Morin escreva um parágrafo inteiro sem querer dizer absolutamente nada de consistente? O material que temos ainda não nos permite responder a tal dúvida e, por isso mesmo, teremos de ler um pouco mais.
Ø  De fato o conhecimento não pode ser considerado uma ferramenta ready made, que pode ser utilizada sem que sua natureza seja examinada. Da mesma forma, o conhecimento do conhecimento deve aparecer como necessidade primeira que serviria de preparação para enfrentar os riscos permanentes de erro e ilusão, que não cessam de paralisar a mente humana. Trata-se de armar cada mente no combate vital rumo à lucidez.(14)

Procurei no dicionário o que significaria “ready made” e o resultado me convenceu: trata-se de um objeto disponível para uso imediato. Eis aí uma discussão de suma importância e que merece uma reflexão um pouco mais aprofundada.
Ø  É necessário introduzir e desenvolver na educação o estudo das características cerebrais, mentais, culturais dos conhecimentos humanos, de seus processos e modalidades, das disposições tanto psíquicas quanto culturais que o conduzem ao erro ou à ilusão. ((14)

É, evidentemente, muito interessante pensar na possibilidade aqui aventada. Mas, ao nos lembrarmos de como funciona uma escola, um conjunto de dúvidas começa a surgir. A primeira já está relacionada ao fato de ser “necessário introduzir (...) na educação”. Ora, mesmo que nos mantenhamos na confortável posição de traduzir a palavra “educação” por “educação escolar” (o que o conjunto de referências já apontadas nos permite com certa tranqüilidade), fica bem difícil entender o que o autor quer nos propor. Trata-se de uma disciplina disposta a discutir tais aspectos do conhecimento humano em sala de aula? Não se trata disso, mas sim, de um conjunto transversal de temas que deve permear a prática escolar? Trata-se de colocar todas as tradições disciplinares sob o crivo da dúvida? Ora, seja pela primeira, segunda ou terceira via, o autor parece desconhecer que as escolas já discutem tais questões nas suas diversas disciplinas e, portanto, que sua proposta não carrega nada de novo para o processo (vide os programas de biologia e/ou ciências, além dos de história, literatura e geografia).
O pensamento de Morin, no entanto, não termina na proposição mas, na continuidade, procura justificar a importância de sua idéia, na qual, como vimos no título desse capítulo, o problema central é a possibilidade do conhecimento estar sujeito ao erro e à ilusão. Outra dúvida vai surgir daí que poderá ser formulada nos seguintes termos: é o conhecimento sobre os processos que nos levam ao conhecer isento de erros e ilusão? Evidentemente que não. Assim sendo, em que medida discuti-los resolve o problema? A resposta, evidentemente não se encontra nesse prólogo. Na verdade, mesmo que o título seja “as cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão”, os três parágrafos que apresentam o capítulo nada dizem sobre o assunto, a não ser a afirmação final do terceiro parágrafo. Isso nos coloca como tarefa seguinte a leitura do próprio capítulo, no sentido de identificar se os parágrafos do sumário realmente se identificam com o texto principal e em que medida está ali o conjunto de respostas às perguntas que vim fazendo até aqui.
“Todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão. A educação do futuro deve enfrentar o problema de dupla face do erro e da ilusão. O maior erro seria subestimar o problema do erro; a maior ilusão seria subestimar o problema da ilusão. O reconhecimento do erro e da ilusão é ainda mais difícil, porque o erro e a ilusão não se reconhecem, em absoluto, como tais”(19)

Não é, realmente, impressionante? O problema do erro e da ilusão remonta, de forma sistemática, à maêutica socrática. De lá, até nossos dias, o perigo parece rondar todo o conhecimento chamado de científico (mesmo que muitos considerem que esse problema seja, somente, do chamado “senso comum”). A afirmação de Morin não é nova e nem acrescenta absolutamente nada à reflexão pautada pela filosofia/epistemologia, à medida que a própria existência da sistematização está estreitamente vinculada à existência da dúvida, isto é, da possibilidade do erro e da ilusão. Iniciar, no entanto, a discussão por uma afirmação tão peremptória sobre o erro e a ilusão sempre nos fará refletir sobre o risco do erro e da ilusão que corre o próprio autor da frase. Em outros termos: se “todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão” porque não podemos afirmar que tal conhecimento (isto é, de que o conhecimento sofre o risco do erro e da ilusão) não está errado e é fundamentalmente ilusório.
Se isso não é explicito no texto temos, necessariamente, de apontar que o autor está sendo, no mínimo, pretensioso e isso se confirma no parágrafo seguinte:
“Erro e ilusão parasitam a mente humana desde o aparecimento do Homo sapiens. Quando consideramos o passado, inclusive o recente, sentimos que foi dominado por inúmeros erros e ilusões. Marx e Engels enunciaram justamente em A ideologia alemã que os homens sempre elaboraram falsas concepções de si próprios, do que fazem, do que devem fazer, do mundo onde vivem. Mas nem Marx nem Engels escaparam destes erros”(19)

A primeira afirmação de que sentimos falta nesse parágrafo seria o autor terminá-lo afirmando que nem mesmo ele está isento de tais riscos. De qualquer maneira, não estamos aqui para colocar em discussão a pretenciosidade do autor, mas, sim, a precisão e importância de suas afirmações.
A primeira delas se refere à constatação de que o “erro e a ilusão parasitam a mente humana desde o aparecimento do homo sapiens”. Temos aí uma afirmação que não pode ter outro significado que o de ser uma “frase de efeito”. Se, realmente, é verdadeiro que o Erro e a Ilusão parasitam a mente humana desde de tempos tão remotos o que será que aconteceu que, milhares de anos depois, nos permitiu identificar o problema? Ora, nada mais evidente que, o fato de colocarmos expressões tais como “erro” e “ilusão” descontextualizadas do processo histórico em que se deram, é um erro e uma ilusão monumentais.
O que poderia ser errado para os nossos antepassados? Quando surgiu o Homo sapiens ele errou em que? Quem poderia afirmar que o homem contemporâneo e, principalmente Morin está mais próximo da verdade que nossos antepassados? Somente se considerarmos a possibilidade de transmutarmos os nossos primeiros representantes para que viessem compartilhar conosco a realidade de nosso presente, nada nos garante que as futuras gerações não nos superarão e que sempre haverá a possibilidade de surgir um tolo que rirá de nossas certezas, pois terá dificuldade em entender o processo social da construção da verdade. Por que devemos considerar somente o passado (inclusive o recente) e deixarmos de lado o presente? A diferença entre as épocas não seria, somente, um tipo de erro ou engano?
Um outro aspecto de suma importância é que é justamente nesse parágrafo que Morin faz a primeira citação de suas profecias. Voltemos: “Marx e Engels enunciaram (...) que os homens sempre elaboraram falsas concepções de si próprios, do que fazem, do que devem fazer, do mundo onde vivem”
Mas..., o que, no final das contas, afirmaram Marx e Engels na tão famosa Ideologia Alemã?[5] Vamos conferir.
A produção de idéias, de representações e da consciência está, em primeiro lugar direta e intimamente ligada à atividade material e ao comércio material dos homens; é a linguagem da vida real. As representações, o pensamento, o comércio intelectual dos homens surge aqui como emanação direta do seu comportamento material. O mesmo acontece com a produção intelectual quando esta se apresenta na linguagem das leis, política, moral, religião, metafísica, etc., de um povo. São os homens que produzem as suas representações, as suas idéias, etc., mas os homens reais, atuantes e tais como foram condicionados por um determinado desenvolvimento das suas forças produtivas e do modo de relações que lhes corresponde, incluindo até as formas mais amplas que estas possam tomar. A consciência nunca pode ser mais do que o Ser consciente; e o ser dos homens é o seu processo da vida real. E se em toda a ideologia os homens e as suas relações nos surgem invertidos, tal como acontece numa câmera obscura, isto é apenas o resultado do seu processo de vida histórico, do mesmo modo que a imagem invertida dos objetos que se forma na retina é uma conseqüência do seu processo de vida diretamente físico.
Contrariamente à filosofia alemã, que desce do céu para a terra, aqui parte-se da terra para atingir o céu. Isto significa que não se parte daquilo que os homens dizem, imaginam e pensam nem daquilo que nas palavras, no pensamento, na imaginação e na representação de outrem para chegar aos homens de carne e osso; parte-se dos homens, da sua atividade real. É a partir do seu processo de vida real que se representa o desenvolvimento dos reflexos e das representações ideológicas deste processo vital” (Marx & Engels, 1980: págs. 25/26)

Paremos por aqui ou acabaremos copiando uma parte considerável d’A Ideologia Alemã. Creio que já temos material suficiente para afirmar que o que Morin disse que Marx e Engels disseram, Marx e Engels não disseram. Os homens não elaboram sempre concepções falsas de si mesmos etc. e tal. Tal afirmação criaria, no interior da obra dos dois autores uma contradição insuperável e insuportável, um verdadeiro paradoxo relativamente simples de ser identificado: se “É a partir do seu processo de vida real que se representa o desenvolvimento dos reflexos e das representações ideológicas deste processo vital” então o erro e a ilusão só podem ser parte do processo de superação do erro e da ilusão que havia sido construído anteriormente. Errar e iludir-se é, na verdade, condição para a conquista do acerto e da lucidez – esse é o problema da razão dialética.
Na verdade, se para Morin (e não para Marx e Engels) os homens sempre se enganam, o que é, no final das contas, que nos permite afirmar que Morin está certo (está ficando evidente que tanto eu quanto Morin estamos nos repetindo)? Trata-se, evidentemente, de uma incorreção na ordem lógica do pensamento do autor cuja maior obra é, justamente, uma reflexão sobre o método (vide bibliografia).
Bem... continuemos:
Afirma Morin: “A educação deve mostrar que não há conhecimento que não esteja, em algum grau, ameaçado pelo erro e pela ilusão” (19)
Não me é difícil concordar com tal afirmação, apesar de sua incompletude. Nossos livros didáticos e nossos professores, apesar das dúvidas que carregam, não costumam deixar essa aparente fraqueza transparecer. Ao que parece a tradição escolar está fortemente envolvida pela dúvida na estrutura e pelo discurso da certeza o que tende a colocar educandos e educadores em situações de conflito cotidiano. Pensemos, no entanto, na questão da incompletude e ela poderá facilmente ser detectada na prática de sala de aula proposta na frase em questão: devemos, dia após dia, aula após aula, ensinar nossos alunos os conteúdos existentes nas disciplinas que ministramos e, a cada momento, lembrá-los que naquele discurso tão arrumado deve haver algum erro ou ilusão que ainda desconhecemos? De que serviria isso para além de nos deixar com a consciência mais tranqüila. Não quero crer que o nosso autor tão ilustre tenha imaginado uma puerilidade desse tipo. Ou a minha resistência em crer nessa tolice é meu erro e ilusão?
Vamos sofisticar, então:
Vamos imaginar que nossos professores tenham um domínio tal dos conteúdos ministrados que sejam capazes de mostrar em que nível se encontram as dúvidas dos pesquisadores envolvidos com aquela temática. Seria interessante, mas, mesmo assim, não resolveria a proposição de Morin, pois a dúvida explícita tende a aparecer como no próprio texto de Morin, isto é, tenho certeza que tenho dúvida, ou melhor, não erro nem me iludo quanto ao fato de que o erro e a ilusão estão, como fantasmas, incrustados no interior de minhas certezas[6] .
Ai vem a questão da incompletude: a afirmação de Morin deixa de lado o papel fundamental da ilusão na construção da desilusão e do erro na construção da verdade. Na escola é preciso mais que se apropriar do discurso tão certo de que nada é tão certo. É preciso vivenciar a contradição para com ela viver. É preciso mais que dizer que os homens e as mulheres do passado (inclusive o recente) estavam iludidos e errados, é preciso se confrontar as certezas do hoje com as de ontem, as nossas (professores) com a do outro (alunos) e, mais que conteúdos, construir a atitude sistemática da dúvida e da possibilidade da construção provisória da certeza.
Mas.... deixemos prá lá minhas certezas desiludidas e voltemos ao que interessa: o texto de Morin.
“O conhecimento não é um espelho das coisas ou do mundo externo. Todas as percepções são, ao mesmo tempo, traduções e reconstruções cerebrais com base em estímulos ou sinais captados e codificados pelos sentidos. Daí resultam, sabemos bem, os inúmeros erros de percepção que nos vêm de nosso sentido mais confiável, o da visão” (20).

Partamos do mesmo princípio de Morin e afirmemos que o “conhecimento não é um espelho das coisas ou do mundo externo”. Que podemos concluir com isso? Será que isso é bom ou mau? É um problema ou uma solução? E se fosse? Que aconteceria? Será que o espelho quando espelha traduz algum tipo de verdade que não seja, simplesmente, o fato de estar espelhando? Se espelhássemos as coisas isso seria, realmente, conhecimento?
Será que não estaria, justamente, no fato de não espelharmos a possibilidade de afirmar-se que conhecemos? Isto é, não estaria no fato de tornarmos nossas experiências sensórias alvo de reflexão e da mediação cultural o que nos permite afirmar que somos capazes de conhecer? Seria conhecimento a informação recebida de forma imediata sem qualquer tipo de mediatidade?
O que é mais verdadeiro? A certeza de que a Terra não tem quaisquer movimentos por que é assim que meus sentidos percebem ou a certeza de que ela se movimenta porque assim a mediação da razão me permite afirmar? Não seria o espelhamento somente um momento do processo de construção do conhecimento?
Pois bem, com tantas dúvidas (e, é claro, não se elabora dúvidas sem se firmar sobre certezas), que poderemos dizer da parte seguinte desse parágrafo? Retomemo-la:
Todas as percepções são, ao mesmo tempo, traduções e reconstruções cerebrais com base em estímulos ou sinais captados e codificados pelos sentidos. Daí resultam, sabemos bem, os inúmeros erros de percepção que nos vêm de nosso sentido mais confiável, o da visão”. (20)

Agora vamos por partes:
·      É um tanto quanto perigoso afirmar que os sentidos, além de captar sinais, os codifica.
·      Mais perigoso, ainda, é afirmar que as percepções são, somente, reconstruções cerebrais que se baseiam nos estímulos.
·      Por fim, cai-se na puerilidade quando se afirmar que a visão é o nosso sentido mais confiável.
A prova mais cabal que os dois primeiros pontos incorrem em erro e ilusão é o fato de que dois sujeitos, submetidos a um mesmo estímulo, não necessariamente têm a mesma sensação e, por fim, que um mesmo sujeito, ao ser submetido mais de uma vez a um mesmo estímulo, fará leituras diferentes da sensação percebida. Em outras palavras, para além do estimulo, nosso cérebro usa da memória para decodificar significados, comparando a situação presente com outras já acontecidas no passado. Portando a base para a decodificação está mediada por algo mais que o sensório: está mediada pela cultura.
Por outro lado, estamos frente ao paradoxo de afirmar que os cegos não podem conhecer ou, o que é mais ou menos o mesmo, que os cegos se baseiam em percepções menos confiáveis que aqueles que enxergam. Ou, ainda, estamos no limite de negar que o sentido mais confiável para perceber odores seja o olfato ou o sentido mais confiável para perceber sons seja a audição e assim por diante. Isso, realmente, é reduzir o conhecimento humano a relações que nem mesmo sei se existem em animais inferiores.
Continuemos, então, com o mesmo parágrafo iniciado (e cortado) acima:
“Ao erro da percepção acrescenta-se o erro intelectual. O conhecimento sob a forma de palavra, de idéia, de teoria, é o fruto de uma tradução/reconstrução por meio da linguagem e do pensamento e, por conseguinte, está sujeito ao erro. Este conhecimento, ao mesmo tempo tradução e reconstrução, comporta a interpretação, o que introduz o risco do erro na subjetividade do conhecedor, de sua visão do mundo e de seus princípios de conhecimento. Daí os numerosos erros de concepção e de idéias que sobrevêm a despeito de nossos controles racionais. A projeção de nossos desejos ou de nossos medos e as perturbações mentais trazidas por nossas emoções multiplicam os riscos de erro.” (20)

A continuação do parágrafo não deixa dúvidas (ou é um erro ou ilusão de minha parte?): há uma diferença entre a simples percepção (mesmo que seja “traduzida” e reconstruída pelo cérebro e etc. e tal) e o conhecimento sob a forma de palavra (...) “o fruto de uma tradução/reconstrução por meio da linguagem e do pensamento e, por conseguinte, está sujeito ao erro”. Morin não deixa saída: a percepção está sujeita ao erro e, quando transformada em conhecimento sob a forma de palavra o erro e a ilusão se repetem: é errar sobre o que já vem errado.
Em outras palavras: os sentidos nos enganam e o pensar sobre o sensório não resolve o problema, pelo contrário, o agrava.
Tal posicionamento me faz lembrar de uma reflexão feita por Henry Lefebvre (1979:69) no seu “Lógica Formal/Lógica Dialética”. Lá ele aponta para o problema usando de um exemplo muito simples: o de uma vara mergulhada n’água. O olhos nos enganam? Será que, realmente, a vara está quebrada? Ora a imagem parece não deixar dúvida (e veja que, como já foi afirmado anteriormente, a visão é o sentido que mais podemos confiar), mas um simples movimento com as mãos nos mostrará que há uma profunda diferença entre o que os sentidos captam (o tato e a visão parecem construir um verdadeiro paradoxo). Lefebvre, então, nos aponta para a teoria da paralaxe e, portanto, para a superação do insuperável (claro, o paradoxo). Pois bem, e agora? Onde está o erro e a ilusão? No tato? Na visão? No conhecimento construído com palavras? Em todos eles? Em nenhum deles?
Vamos tomar um segundo exemplo. Aristóteles afirmou que a Natureza é composta por quatro elementos, sendo que o elemento terra é, dentre eles, o mais pesado e que, portanto, se concentra no centro do Universo. Podemos dizer que Aristóteles foi levado ao erro e à ilusão por conjugar as dificuldades do sensório às da estrutura discursiva? Copérnico diria que sim. Galileu também. Mas eles imaginavam que o Sol era o centro do Universo e, então, Newton os superou afirmando que, por ser infinito o Universo, na verdade, não tem centro. Que diria, então, Einstein com seu universo curvo e a mudança do eixo de análise da relatividade (isto é, enquanto o absoluto de Newton é o espaço, o absoluto de Einstein é a velocidade da Luz)? Não estaríamos aqui, mais que evidenciando o erro e a ilusão, inserindo-os no processo mesmo de construção do conhecimento?
Qual é, no final das contas, o problema de se errar e se iludir? Trata-se aqui de um problema de ordem moral ou psíquica que nos leva a certo tipo de mortificação por fazermos discursos tão cheio de certezas é, ao mesmo tempo, “sentirmos” que existe a possibilidade de errarmos e nos iludirmos? Ou estaria Morin, simplesmente (e reiteradamente) insistindo nesse ponto para nos apontar a necessidade do reconhecimento do problema para que tenhamos mais e melhores condições de enfrentá-lo?
Evitemos respostas apressadas. Vamos continuar a ler e reler o texto de Morin:
Este conhecimento, ao mesmo tempo tradução e reconstrução, comporta a interpretação, o que introduz o risco do erro na subjetividade do conhecedor, de sua visão do mundo e de seus princípios de conhecimento.” (20)
Cá estamos nós, girando em torno do mesmo lugar (estaríamos aqui no campo do que Ruy Moreira chamou de causação circular?) epistemológico. Mas a continuação do parágrafo introduz um elemento a ser realçado:
“Daí os numerosos erros de concepção e de idéias que sobrevêm a despeito de nossos controles racionais. A projeção de nossos desejos ou de nossos medos e as perturbações mentais trazidas por nossas emoções multiplicam os riscos de erro.” (20)

Há, num primeiro momento, o problema a se considerar: Morin propõe o que para as emoções? Perdoem-me se não consigo deixar de associar a afirmação acima a um livro de auto-ajuda e, menos ainda, de deixar isso registrado. Difícil afirmar que quem inicia uma discussão sobre o método propondo a superação das dicotomias propostas pelo positivismo faça afirmações que colocam as emoções humanas em rota de colisão com o conhecimento, o que pressuporia a idéia de que conhecimento, para ser conhecimento, deve estar liberado do emocional.
Por outro lado, que seria esse tal de “controle racional”. De onde ele veio? Não faz parte da própria ilusão e da emoção? Que coisa! Num primeiro momento estamos frente ao sensório (o que, ao que parece, já é um tipo de conhecimento que, infelizmente está cercado pelo erro e ilusão dos sentidos), depois temos o pensar intelectivo (com palavras) que, também, se enrola no mesmo problema, na verdade aprofundando-o. Entra em cena, nesse final, o tal do controle racional, mas que parece impotente para chegarmos a algo como a verdade (seria esse o nome do conhecimento isento de erro e de ilusão?). Está faltando responder um ponto que daria encaminhamento a tudo isso: o que é conhecimento?
Será que tal resposta ainda virá pela frente? Tenhamos paciência...Afinal, no capítulo 2 teremos algo como “Os princípios do conhecimento pertinente” e deve ser por lá que encontraremos respostas às nossas dúvidas.
Voltemos. O parágrafo que segue parece querer colocar uma mediação sobre o anterior:
Poder-se-ia crer na possibilidade de eliminar o risco de erro, recalcando toda afetividade. De fato, o sentimento, a raiva, o amor e a amizade podem-nos cegar. Mas é preciso dizer que já no mundo mamífero e, sobretudo, no mundo humano, o desenvolvimento da inteligência é inseparável do mundo da afetividade, isto é, da curiosidade, da paixão, que, por sua vez, são a mola da pesquisa filosófica ou científica. A afetividade pode asfixiar o conhecimento, mas pode também fortalecê-lo. Há estreita relação entre inteligência e afetividade: a faculdade de raciocinar pode ser diminuída, ou mesmo destruída, pelo déficit de emoção; o enfraquecimento da capacidade de reagir emocionalmente pode mesmo estar na raiz de comportamento irracionais.”
Portanto, não há  um estágio superior da razão dominante da emoção, mas um eixo intelecto«afeto e, de certa maneira, a capacidade de emoções é indispensável ao estabelecimento de comportamentos racionais”(20/21)

Não podemos exigir de um texto que ele comente ou desenvolva questões que ele mesmo não se proponha e, por isso mesmo, até aqui não há porque nos perdermos em questões como: o que é emoção? O que é afetividade? E assim por diante. Creio que ao terminar o parágrafo anterior o nosso autor tenha percebido que estava diante de um problema (o conhecimento científico só é científico se for construído por um sujeito neutro, racional etc. – considerando, sempre, que racional significa a eliminação do emocional) que tinha sido resolvido pelo positivismo clássico. O desdobramento apontado pelos dois parágrafos acima procura resolver a questão, mas deixa uma dúvida no ar: se, para os humanos, “o desenvolvimento da inteligência é inseparável do mundo da afetividade”, a “afetividade pode asfixiar o conhecimento, mas pode também fortalecê-lo”. O problema é que afetividade e conhecimento, no presente texto, são categorias que se colocam num mesmo patamar e, portanto, podem se juntar ou se contrapor. Em outras palavras: afetividade não é uma das dimensões do conhecimento e, portanto, a ele subordinada mas, pelo contrário, é algo à parte que pode ou não influenciar – negativa ou positivamente – o próprio conhecimento. A prova disso está na expressão “intelecto«afeto” que encontramos no início do parágrafo seguinte. Voltamos ao ponto: o que será que é mesmo conhecimento para Morin? Daremos aqui a mesma resposta anterior: paciência, vamos aguardar o que vem por aí.
Vamos, agora, pular os dois parágrafos que sintetizam o item que estamos discutindo (não vale a pena repetir tudo o que já foi dito). Vamos, portanto, para o item 1.1, onde Morin procura identificar “Os erros mentais”.
Vejamos:
Nenhum dispositivo cerebral permite distinguir a alucinação da percepção, o sonho da vigília, o imaginário do real, o subjetivo do objetivo”.(21)

Vamos observar os comentários de um outro autor sobre o mesmo tema:

Há já muito tempo eu me apercebi de que, desde meus primeiros anos, recebera muitas falsas opiniões como verdadeiras, e de que aquilo que depois eu fundei em princípios tão mal assegurados não poderia ser senão mui duvidoso e incerto;
(...)
Tudo o que recebi, até presentemente, como o mais verdadeiro e seguro, aprendi-o dos sentidos ou pelos sentidos; ora, experimentei algumas vezes que esses sentidos eram enganosos, e é de prudência nunca se fiar inteiramente em que já nos enganou uma vez;
(...)
...devo aqui considerar que sou homem e, por conseguinte, que tenho o costume de dormir e de representar, em meus sonhos, as mesmas coisas, ou algumas vezes menos verossímeis, que (...) em vigília. Quantas vezes ocorreu-me sonhar, durante a noite, que estava vestido, que estava junto ao fogo, embora estivesse nu dentro de meu leito? Parece-me agora que não é com olhos adormecidos que contemplo este papel; que esta cabeça que eu mexo não está dormente; que é com desígnio e propósito deliberado que estendo esta mão e que a sinto: o que ocorre no sonho não parece ser tão claro nem tão distinto quanto tudo isso. Mas, pensando cuidadosamente nisso, lembro-me de ter sido muitas vezes enganado, quando dormia, por semelhantes ilusões. E, detendo-me neste pensamento, vejo tão manifestamente que não há quaisquer indícios concludente, nem marcas assaz certas por onde possa distinguir nitidamente a vigília do sono, que me sinto inteiramente pasmado: e meu pasmo é tal que é quase capaz de me persuadir de que estou dormindo.” (Descartes: 1973;p. 93/94)

Como o leitor pode, facilmente, constatar, o texto de Morin foi suficientemente provocativo para me levar a associá-lo diretamente com as Meditações de Descartes (no caso o texto citado acima é o início da 1ª meditação).
Não é instigante que Morin, crítico feroz do cartesianismo, tenha como ponto de partida[7] em seu texto os fundamentos da “dúvida hiperbólica” cartesiana? Por que será que a necessidade de construção de novos paradigmas (no presente caso para a educação do futuro) aponta para o “engano dos sentidos”, para a indiferenciação entre o sonho e a vigília e assim por diante tal como já o fez Descartes?
O bom senso (Emoção? Erro? Ilusão? Falta de cientificidade?) me diz que iniciar aqui um diálogo entre os dois autores (Morin e Descartes) pode tornar essa leitura por escrito algo sem fim. A obra cartesiana foi suficientemente discutida, comentada, criticada e elogiada nos últimos séculos. Não caberia aqui retomá-lo só para ler Morin. Mas, à medida que a citação deixa evidente que ambos iniciam suas reflexões partindo da construção da dúvida nos sentidos, será necessário, antes de terminarmos, verificar se ambos chegaram à mesma conclusão.
Vamos, primeiramente identificar o risco inerente à afirmação moriniana: se é verdade que “nenhum dispositivo cerebral pode identificar” etc., como é que sabemos disso? Como sabemos que tal afirmação é verdadeira? É possível afirmar? Não seria isso pura retórica, já que carrega consigo um problema lógico insolúvel já que, não sendo possível identificar se, no momento em que estou pensando estou, por exemplo, dormindo ou acordado, o que é que me garante que é verdadeiro afirmar que não há dispositivo cerebral que me permita qualquer tipo de reconhecimento? Isto é, se não sou capaz de discernir como faço uma afirmação que é, sempre, um discernimento?
Descartes resolveu sua dúvida dialogando diretamente com sua fé, isto é, primeiramente acreditando em Deus e, em segundo lugar, afirmando que esse mesmo Deus jamais o enganaria. Será que Morin fará a mesma coisa?
O homem comum não tem a dúvida de Morin. Por que será? O senso comum é menos sábio? Provavelmente...
Retomemos observando o retrato do homem moriniano:
“A importância da fantasia e do imaginário no ser humano é inimaginável; dado que as vias de entrada e de saída do sistema neurocerebral, que colocam o organismo em conexão com o mundo exterior, representam apenas 2% do conjunto,  enquanto 98% se referem ao funcionamento interno, constituiu-se um mundo psíquico relativamente independente, em que fermentam necessidades, sonhos, desejos, idéias, imagens, fantasias, e este mundo infiltra-se em nossa visão ou concepção do mundo exterior.
Cada mente é dotada também de potencial de mentira para si próprio (self-deception), que é fonte permanente de erros e de ilusões. (...).
A própria memória é também fonte de erros inúmeros. A memória, não-regenerada pela rememoração, tende a degradar-se, mas cada rememoração pode embelezá-la ou desfigurá-la. Nossa mente, inconscientemente, tende a selecionar as lembranças que nos convêm e a recalcar(...). Assim, a memória, fonte insubstituível de verdade, pode ela própria estar sujeita aos erros e às ilusões.” (21/22)

Realmente, em se considerando tudo isso, a humanidade do humano é uma verdadeira impossibilidade. Difícil dizer como conseguimos sobreviver, como espécie, durante tantos milênios e as razões que nos levam a fazer fogueiras que aquecem, casas que abrigam, armas que matam, televisores que funcionam e assim por diante.
Acontece, no entanto, que seria um imenso erro e uma incomensurável ilusão se imaginássemos que as discussões sobre tais mazelas terminaram. Salvo melhor juízo o que se lê nos próximos parágrafos é somente um agravamento (ou será aqui que encontraremos as mediações?) de tudo o que nos foi informado até aqui:

“1.2 Os erros intelectuais
Nossos sistemas de idéias (teorias, doutrinas, ideologias) estão não apenas sujeitos ao erro, mas também protegem os erros e ilusões neles inscritos. Está na lógica organizadora de qualquer sistema de idéias resistir à informação que não lhe convém ou que não pode assimilar. As teorias resistem à agressão das teorias inimigas ou dos argumentos contrários. Ainda que as teorias científicas sejam as únicas a aceitar a possibilidade de serem refutadas, tendem a manifestar esta resistência. Quanto às doutrinas, que são teorias fechadas sobre elas mesmas e absolutamente convencidas de sua verdade, são invulneráveis a qualquer crítica que denuncie seus erros.” (22)

Não vale a pena comentar. O melhor é continuar lendo.

1.3 Os erros da razão
O que permite a distinção entre vigília e sonho, imaginário e real, subjetivo e objetivo é a atividade racional da mente, que apela para o controle do ambiente (resistência física do meio ao desejo e ao imaginário), para o controle da prática (atividade verificadora), para o controle da cultura (referência ao saber comum), para o controle do próximo (será que você vê o mesmo que eu?), para o controle cortical (memória, operações lógicas). Dito de outra maneira, é a racionalidade que é corretiva. (22)

Encontramos, finalmente, a saída? De certa maneira a questão da racionalidade (e, portanto, da razão) já está colocada em parágrafos anteriores. Aqui, no entanto, ela se explicita como ferramenta de controle. O problema é que é difícil pensar na razão como um ato não humano e, por outro lado, imaginar que o erro e a ilusão não são, eles também, resultado de tal racionalidade. Dessa maneira como encontrar soluções se lembrarmos que:
·      O controle do ambiente envolve a sensorialidade (a qual, vira e mexe, nos engana);
·      O controle da prática envolve a memória (cujas dificuldades não são menores);
·      O controle da cultura envolve a irracionalidade (sem comentários);
·      O controle do próximo envolve a sensorialidade, a memória e a cultura desse próximo (que fazer?)
·      O controle cortical envolve os mesmos elementos somados à linguagem – a qual por sua vez foi construída sob as mesmas condições – e, assim sendo, a dificuldade permanece.
Morin parece não se preocupar com o que ele mesmo veio afirmando em parágrafos anteriores. Agora a razão será dicotomizada e teremos, então, dois níveis de racionalidade (uma boa e outra má, sendo que a segunda é carregada no interior da primeira). Vejamos:

“A racionalidade é a melhor proteção contra o erro e a ilusão. Por um lado, existe a racionalidade construtiva que elabora teorias coerentes, verificando o caráter lógico da organização teórica, a compatibilidade entre as ideias que compõem a teoria, a concordância entre suas asserções e os dados empíricos aos quais se aplica: tal racionalidade deve permanecer aberta ao que a contesta para evitar que se feche em doutrina e se converta em racionalização; por outro lado, há a racionalidade crítica exercida particularmente sobre os erros e ilusões das crenças, doutrinas e teorias. Mas a racionalidade traz também em seu seio uma possibilidade de erro e de ilusão quando se perverte, como acabamos de indicar, em racionalização. A racionalização se crê racional porque constitui um sistema lógico perfeito, fundamentado na dedução ou na indução, mas fundamenta-se em bases mutiladas ou falsas e nega-se à contestação de argumentos e à verificação empírica. A racionalização é fechada, a racionalidade é aberta. A racionalização nutre-se nas mesmas fontes que a racionalidade, mas constitui uma das fontes mais poderosas de erros e ilusões. Dessa maneira, uma doutrina que obedece a um modelo mecanicista e determinista para considerar o mundo não é racional, mas racionalizadora.” (23)

Temos aqui, então, a racionalidade nos protegendo do erro e da ilusão, mas não podemos deixar de lado a possibilidade de sua perversão – tornando-se, então, racionalização. É possível ler tudo isso e não prestar atenção nas expressões? O que será que quer dizer o nosso autor com “perversão da racionalidade”? É o racionalismo um problema de ordem moral? O racionalismo é o mesmo que sofisma? Se for, por que, então, não usar a expressão corrente?

“A verdadeira racionalidade, aberta por natureza, dialoga com o real que lhe resiste. Opera o ir e vir incessante entre a instância lógica e a instância empírica; é o fruto do debate argumentado das ideias, e não a propriedade de um sistema de ideias. O racionalismo que ignora os seres, a subjetividade, a afetividade e a vida é irracional. A racionalidade deve reconhecer a parte de afeto, de amor e de arrependimento. A verdadeira racionalidade conhece os limites da lógica, do determinismo e do mecanicismo; sabe que a mente humana não poderia ser onisciente, que a realidade comporta mistério. Negocia com a irracionalidade, o obscuro, o irracionalizável. E não só crítica, mas autocrítica. Reconhece-se a verdadeira racionalidade pela capacidade de identificar suas insuficiências.
A racionalidade não é uma qualidade da qual são dotadas as mentes dos cientistas e técnicos e de que são desprovidos os demais. Os sábios atomistas, racionais em sua área de competência e sob a coação do laboratório, podem ser completamente irracionais em política ou na vida privada.” (23/24)

O início deste parágrafo dá continuidade à mesma confusão conceitual que viemos acompanhando até aqui. É interessante notar que a ideias de “verdadeiro” está associada a um comportamento de ordem moral, quase mística. A ideias de que para ser verdadeira a razão deve ser aberta por natureza é, no mínimo, infantil, pois não podemos inferir nenhum dado de verdade no pensamento que se debate abertamente com  o “real que lhe resiste”. Os sofistas também se debatem com o real e isso não os torna nem mais nem menos verdadeiros e, mais que isso, afirmar que há uma razão aberta por natureza é conferir uma característica de imanência a uma construção eminentemente cultural. Trata-se, portanto, de um rompante sem quaisquer significados.
A continuidade do mesmo parágrafo não desaponta: como será que algo pode ser “fruto de um debate argumentado de ideias” sem ser “propriedade de um sistema de ideias”? Que será que quer dizer “propriedade” neste contexto? Como podemos construir argumentos no interior de um debate sem que, de alguma forma, não nos referenciemos na estrutura conceitual que já possuímos? Por fim, em que medida posso chamar de irracional um pensar somente porque ele ignora questões que no meu entender são fundamentais? Em que medida os meus valores são os que determinam o significado de racionalidade? Como posso fazer esse tipo de afirmação quando tenho por princípio que não se pode esquecer “os seres, a subjetividade, a afetividade e a vida” quando não é possível negar que esquece-los faz parte dos seres, da subjetividade, da afetividade e da vida dos humanos?
Mais à frente e, novamente, nos deparamos com um preceito de cunho religioso. Ei-la: “Reconhece-se a verdadeira racionalidade pela capacidade de identificar suas insuficiências”. Afirmações desse tipo me levam, irresistivelmente (e, creio, Morin não ficaria indignado já que sua racionalidade comporta um diálogo com minha subjetividade) a outras, um tanto mais clássicas, que procura nos ensinar que seremos injustos quando criticamos a presença de um cisco no olho de alguém sem levar em consideração a presença de uma trava em nossos próprios olhos. Isso, sem dúvida, já está apontando para o realce de minha impertinência, mas, como disse, a provocação é irresistível.
Deixemos que o restante do parágrafo fale por si mesmo e vamos para as sábias afirmações subseqüentes:
“Da mesma forma, a racionalidade não é uma qualidade da qual a civilização ocidental teria o monopólio. O ocidente europeu acreditou, durante muito tempo, ser proprietário da racionalidade, vendo apenas erros, ilusões e atrasos nas outras culturas, e julgava qualquer cultura sob a medida do seu desempenho tecnológico. Entretanto, devemos saber que em qualquer sociedade, mesmo arcaica, há racionalidade na elaboração de ferramentas, na estratégia da caça, no conhecimento das plantas, dos animais, do solo, ao mesmo tempo em que há mitos, magia e religião. Em nossas sociedades ocidentais estão também presentes mitos, magia, religião, inclusive o mito da razão providencial e uma religião do progresso. Começamos a nos tornar verdadeiramente racionais quando reconhecemos a racionalização até em nossa racionalidade e reconhecemos os próprios mitos, entre os quais o mito de nossa razão toda-poderosa e do progresso garantido.” (24)

Que posso dizer sobre tais afirmações que não seja a pura e simples concordância? Talvez, pura e simplesmente, que se o autor relesse o que escreveu desistiria de nos ensinar quais são os “Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro” de toda a humanidade.
Continuemos...

“Daí decorre a necessidade de reconhecer na educação do futuro um princípio de incerteza racional: a racionalidade corre risco constante, caso não mantenha vigilante autocrítica quanto a cair na ilusão racionalizadora. Isso significa que a verdadeira racionalidade não é apenas teórica, apenas crítica, mas também autocrítica.” (24)

Fica aqui, mais uma vez, registrada minha perplexidade. Se o exercício da crítica e da autocrítica não é construção teórica, tenho de reconhecer que não faço a menor idéia do que isso tudo seja. Vejamos: Immanuel Kant nos legou, pelo menos, três grandes obras assim denominadas “Crítica da Razão Pura”, “Crítica da Razão Prática” e “Crítica da Faculdade do Juízo”. Quem de nós poderia afirmar que não se trata de um conjunto de reflexões teóricas da máxima importância para o pensamento dito moderno? Por outro lado, como não lembrar que os opúsculos reunidos por Marx e Engels n’A Sagrada Família tinham por sub-título “Crítica da crítica crítica” e assim por diante. E a auto crítica? Ora, assim voltamos ao problema bíblico do cisco e da trave e não vale a pena mais comentar sobre a presença desse intelectual “bom moço”, voltado a ser “moral, política e eticamente correto” proposto por Morin.


Bibliografia
DESCARTES, René. Meditações. Os Pensadores, vol. XV, p. 81-150. 1ª  ed. São Paulo: Abril Cultural,  1973.
LEFEBVRE, H. Lógica Formal/ Lógica Dialética. Rio de Janeiro: Ed. Civ. Bras.,  1979.
MARX, K e Engels, F. A Ideologia Alemã. Lisboa: Ed. Presença e Liv. Martins Fontes, 2 vols. 1980
MOREIRA, Ruy.  O Círculo e a Espiral. Rio de Janeiro: Ed. Obra Aberta, 1993.
MORIN, Edgar. Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro. São Paulo: Cortez; Brasília: UNESCO, 2000
SANTOS, Douglas. O Significado de Escola. Rev. Construção Psicopedagógica, v.16 n.13 São Paulo dez. 2008 in http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1415-69542008000100003&script=sci_arttext
THOMPSON, E. P. A Miséria da Teoria. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 1981



[1] Ler atentamente é um exercício necessário ao estudo e é este o esforço que me proponho a desenvolver aqui. Tal exercício tem, antes de tudo, um fundamento de caráter pedagógico e, por isso mesmo, o dedico aos meus alunos (àqueles que já o foram e, quem sabe (?), àqueles que porventura ainda terei o prazer de conhecer).

[2] De todos eles, somente os agradecimentos é de autoria de Edgar Morin.
[3] Vale aqui tomar atenção para a estrutura da obra e, no caso, do próprio prólogo: são “sete saberes” discutidos em sete capítulos para os quais, ao serem apresentados ao leitor, elabora-se três parágrafos. Sem dúvida trata-se de um esforço (quase que?) cabalístico.
[4] Como se vê consegui agrupar as perguntas em três parágrafos. Será que isso significa alguma coisa?
[5] Não seria, justamente este o problema de um texto que ao fazer citações as faz de forma incompleta? Existe a possibilidade de na versão d’A Ideologia Alemã que Morin dispõe, numa certa página e parágrafo, os pensadores alemães terem induzido seus leitores às conclusões que Morin chegou? Claro que sim! Mas...como saberemos se nem mesmo uma bibliografia será encontrada no final do texto? Bem....deixemos para discutir o final da obra quando conseguirmos chegar até lá.
[6] Nada como, num momento desses, deixar a imaginação livre e solta e se perguntar: teria Morin lido as Meditações de Descartes? Ora, com certeza que sim. Um autor que faz tantas críticas a outro só deve fazê-lo que o conhecer muito bem. Então....por que será que me sinto, lendo o texto de Morin, tão próximo dos terrenos perscrutados pela dúvida hiperbólica cartesiana?
[7] Afinal, estamos somente na terceira página do texto original.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Para ler Althusser


Ensaios sobre a miséria da teoria – 1


Ler atentamente é um exercício necessário ao estudo e é este o esforço que me proponho a desenvolver aqui. Tal exercício tem, antes de tudo, um fundamento de caráter pedagógico e, por isso mesmo, o dedico aos meus alunos (àqueles que já o foram e, quem sabe (?), àqueles que porventura ainda terei o prazer de conhecer).   

Para ler Althusser


No chamado “campo marxista” ou, para os não iniciados, naquele grupo de intelectuais e ativistas políticos que se consideram de esquerda e, mais que isso, veem no legado da dupla Marx e Engels[1] uma fonte inesgotável de conhecimento e inspiração – e não se incomodam em tornar tal postura um verdadeiro “ato público”- encontramos, como em todos os demais agrupamentos, pessoas muito diferentes e que, na melhor das hipóteses, possuem graves e profundas divergências entre si. Em poucas palavras: o campo marxista é, como todos os demais “campos” (religiosos ou não), um agrupamento de pessoas que busca, num determinado tipo de tradição, algum tipo de identidade e, diga-se de passagem, tais identidades são extremamente importantes para se garantir aprioristicamente algum tipo de relação e realização.
Se considerarmos a importância do legado de Marx e Engels para as diferentes formas de organização política materializadas a partir da Primeira Internacional dos Trabalhadores, não teremos nenhum motivo para nos espantarmos com esse fenômeno. Em alguns momentos tais divergências tornam-se suficientemente incompreensíveis a ponto de se tornarem alvo dos humoristas (o grupo inglês Monty Pyton no filme “A vida de Brian” tornou-se um clássico) ou de textos como de Jean Baudrillard em seu também clássico: Os Partidos Comunistas. Isso tudo sem levar em consideração o fato de, no interior do “campo”, alguns grupos denunciarem-se mutuamente como traidores e, quando alguns deles se reúnem e assumem o poder de Estado, há casos em que acabam se tornando o anti-exemplo do que se poderia imaginar da prática política das esquerdas (o campo das esquerdas) e, especialmente, dos marxistas.
Bem... considerando que esses dois primeiros parágrafos não devem ser mais que uma introdução a uma espécie de resenha, eis-me envolvido, como membro auto eleito desse chamado “campo marxista”, em mais uma tentativa de identificar suas mazelas, suas fragilidades, suas dificuldades.
Iniciei este texto tendo em mente algumas observações que, me parece, devem ser realizadas em relação à edição feita pela Boitempo do primeiro volume do Capital (obviamente que estou me referindo à obra do Marx). Coisas que me (obviamente) chamaram a atenção e que em nada se relaciona à obra propriamente dita.
O melhor começo para meus comentários é, de fato, o texto que se encontra na “orelha” do livro e que foi assinado por nada menos que Francisco de Oliveira. É melhor citar primeiro e, depois, comentar:
                                    LER O CAPITAL
Esse é o título da edição brasileira do célebre texto de Louis Althusser e Étienne Balibar, com as devidas desculpas pelo plágio proposital, pois não encontro melhor forma de recomendar este clássico de Marx aos leitores lusófonos.
Nossa (...)brava Boitempo presta um novo serviço àqueles que necessitam recorrer ao texto mais completo sobre o capitalismo.
Ela reuniu um time formidável, encabeçado por Jacob Gorender, José Arthur Giannotti e Louis Althusser...”

Parei aqui, tentando imaginar o que nos queria dizer o grande Francisco de Oliveira. Pesarosamente e provavelmente, a contribuição de Jabob Gorender a esta edição d’O Capital deve ter sido uma de seus últimos trabalhos na direção do aprimoramento do debate no “campo marxista”(Gorender faleceu em 2013), mas a presença do nome de Althusser nessa lista de “encabeçadores” é algo, de fato, a se estranhar. O pensador francês faleceu em 1990, muito antes da existência da Boitempo e, igualmente, muito antes de se imaginar a necessidade dessa nova tradução d’O Capital para o português.  Bem... Francisco de Oliveira não nos explica o porque colocou Althusser encabeçando esse time formidável e, creio, não acharemos nenhuma explicação para isso nessa edição, a não ser a possibilidade do autor do “texto de capa” ter sido mau informado.
Na nota da Edição temos uma referência que pode nos ajudar. Vejamos:
A Boitempo Editorial agradece ao tradutor (...); aos professores (....) que se dividiram na leitura dos capítulos; a Francisco de Oliveira, Jacob Gorender, José Arthur Giannotti e Louis Althusser (por meio de seu espólio), autores dos textos de capa e de introdução (...)” (pág. 13)
Como se vê, o texto da Editora parece mais claro que o de seu convidado, aparentemente pouco esclarecido sobre o papel de cada um neste processo editorial.
De qualquer maneira, todo o equívoco deve chamar a atenção dos leitores por um simples e interessante detalhe: o que está fazendo Louis Althusser aqui? Incontáveis foram os comentadores d’O Capital. Para uma edição brasileira a presença de textos introdutórios de Francisco de Oliveira, Gorender e Giannotti é, no mínimo, o reconhecimento do legado desses homens ao pensamento de esquerda no Brasil e, sem dúvida, a mais justa das homenagens que se lhes poderia ser feita. Mas... Althusser? Ou outro qualquer comentarista para além dos diversos e diferentes prefácios do próprio Marx e de Engels (que, como se sabe, foi o organizador dos volumes finais da obra depois da morte de Marx) parece-me uma escolha que não colabora para o debate. Cada um deles, em suas diferentes épocas, representaram ou foram porta vozes de grupos que se advogaram como os mais autênticos marxistas e, assim, só faria sentido se os principais comentadores preenchessem volumes e volumes muito mais avantajados que as mais de oitocentas páginas oferecidas pela Boitempo.
De qualquer maneira, creio que vale ir um pouco mais à frente, deixando de lado este discurso genérico de estranhamento e procurando identificar o sentido de algumas proposições althusserianas no interior do esforço da “pequena e brava Boitempo”, como nos avisa Francisco de Oliveira.
Comecemos pelo título: “Advertência aos Leitores do Livro I d’O Capital” (pág. 39). Que quer nos dizer o pensador francês? Ora, ele quer nos “advertir”, não quer que leiamos a obra de Marx sem um preparo prévio, como pode fazê-lo algum leitor inocente, por assim dizer. Ele quer ser o leitor que antecede a leitura do leitor e, portanto, quer que, ao ser lido com antecedência, tornar o novo leitor uma reprodução de seus próprio parâmetros de leitura. Trata-se, portanto, de uma ótima intenção típica de alguém suficientemente petulante para se achar um leitor mais preparado que outros leitores ou, o que é mais duvidoso, alguém que imagina que pessoas completamente despreparadas e por puro acaso se debruçariam e leriam inocentemente uma obra como O Capital.   
Vejamos o primeiro parágrafo:
O que é O Capital? É a grande obra de Marx, a qual ele dedicou toda a sua vida desde 1850 e sacrificou, em provações cruéis, a maior parte de sua existência pessoal e familiar”

Talvez valesse perguntarmos novamente: “O que é O Capital?” porque, efetivamente, a resposta de Althusser não responde à pergunta. Aparentemente estamos frente a uma obra resultado do sacrifício pessoal de um tal Karl Marx. Algo que efetivamente não nos diz se ela é interessante ou não e, mais que isso, trata as escolhas pessoais feitas pelo autor como se nelas houvesse argumentos suficientes para sua santificação – considerando, principalmente, as tais das “provações cruéis”. Fico a imaginar quantos foram os autores que dedicaram muito mais que suas vidas pessoais e familiares e tiveram como resultado obras medíocres. Para Althusser, tal como aqueles que se dedicam ao sacerdócio, Marx sacrificou sua vida pessoal e familiar. Um comentário para leigos, considerando que Marx, pelos prefácios que escreveu e o tom de seu texto, teve um grande prazer em fazer as descobertas geniais que fez e deu sentido à sua obra. Marx, efetivamente, não se entregou às forças reacionárias para redimir a humanidade de seus pecados ou para, depois de morto, ressuscitar ao terceiro dia e, até onde se pode perceber, procurou permanecer o mais distante possível de qualquer tipo de messianismo.
Continuemos:
Esta é a obra pela qual Marx deve ser julgado. Por ela apenas, não por suas ‘obras de juventude’ ainda idealistas (...)Não por obras ainda muito ambíguas, como A Ideologia Alemã ou mesmo os Grundrisse (....)” (pág. 39)

Uma nova pergunta deve ser feita ao texto (já que ao autor não é mais possível): Marx deve ser ou está sendo julgado? E, na sequência, aproveitando o parágrafo: será que, efetivamente, seria possível afirmar que, independentemente da sua intencionalidade, a construção de uma obra como O Capital não teria de fato se iniciado quando Marx se torna um hegeliano de esquerda? Ou, será que seria possível a ele se livrar de sua própria vida para poder refletir sobre a vida?
Observe-se, ainda, que um dilema quase aritmético está embutido nesse parágrafo: em 1850 Marx tinha somente 32 anos e, considerando somente os textos mais conhecidos:
·      É neste mesmo ano que publica “A Luta de Classes na França”;
·      Em 1852 vem ao público o “Dezoito Brumário de Luís Napoleão”;
·      Em 1857 ele publica os “Grundrisse”;
·      Em 1859 o “Contribuição à Crítica da Economia Política”;
·      1865 “Salário, Preço e Lucro e, por fim, em 1867, o primeiro volume do Capital.
A cronologia coloca, de forma mais que evidente, o que as biografia de Marx apontam: pensando em termos das discussões sobre a literatura econômica existente n’O Capital, os Grundrisse, a Contribuição à Crítica e as Teorias da Mais Valia (texto elaborado entre 1861 e 1863 e publicado por Kautsky em 1905)  foram verdadeiros e exaustivos exercícios que resultaram n’O Capital. Fazem, portanto, desse ponto de vista, elementos fundamentais para a compreensão da obra – desde que não se objetive julgar o autor, mas compreender o processo de construção de sua reflexão.
Por fim, a ideia de existir um “jovem Marx” idealista, cuja obra deve ser vista como de menor importância trata de tentativas de periodização cuja fragilidade está suficientemente amadurecida na literatura disponível e de uso comum no chamado “campo marxista”.
Quanto ao texto de Althusser publicado como uma espécie de apresentação, obviamente ele vai muito além desses primeiros parágrafos. Creio que o melhor é indicar o já clássico “A Miséria da Teoria” onde o historiador inglês E. P. Thompson esmiúça o pensamento althusseriano de maneira a não deixar dúvidas quanto à miserabilidade de seus fundamentos.
Assim, que fiquem esses meus comentários como um registro daquilo que ele realmente é: um simples estranhamento quanto a uma postura editorial, o que em nenhum momento coloca em questão a qualidade do trabalho materializado nessa nova versão da obra de Marx.
A título de bibliografia, vale apontar somente os dois livros a seguir, sendo que no primeiro está publicado o comentário de Francisco de Oliveira e o texto de Althusser que comentei e, no segundo, os comentários de Thompson que, até o momento, não precisam ser revisados:
MARX, K, O Capital, Livro I,  São Paulo, Boitempo Editorial, 2013
THOMPSON, E. P. A Miséria da Teoria, Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1981.







[1] Vale lembrar que para alguns marxistas Engels era um positivista e, portanto, a dupla que estou colocando em evidência também não é uma unanimidade dentro do “campo” em questão.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Moçambique: comentários, lembranças, perspectivas...

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 Neste momento já me encontro muito distante das terras moçambicanas e, por isso mesmo, me pareceu mais fácil fazer os comentários que aqui vão registrados. Mais fácil porque, olhar o mundo com a distância necessária para  sobre ele refletir, sem que dele tenhamos nos apartado, nos torna mais sintéticos, mais reflexivos. O cotidiano, na sua simples e pura cotidianeidade, para que possa ser observado, sistematizado e lido tende a se tornar novelesco ou, no jargão acadêmico, fenomenológico, ou, numa outra variante mais antiga, empiricista. Acontece que, como se pode afirmar utilizando-se outro jargão acadêmico, o que sempre se busca é a construção do conceito, é o entendimento do fenomênico e, fiquemos por aqui: o fenômeno, sem a teoria, é vazio de significado.
Assim, tendo tal distanciamento em mente e tendo por objetivo encerrar meus comentários e reflexões sobre mais esta viagem a Moçambique, volto a citar o “noticias” anterior, onde um dos meus mais novos amigos da Beira, o professor Suluda, me disse que os Moçambicanos pensam em uma língua e falam em outra. Tal como naquela ocasião, todo o esforço de compreensão se volta para o desvendamento desse mundo carregado de meios termos, de ambiguidades, de rupturas que procuram rearranjar o mundo das tradições tribais rearranjando o mundo das tradições capitalistas, ocidentais, de fundamento europeu.
É para dar mais um passo nessa perspectiva que relembro mais uma vez o prof. Suluda e o fato de termos (eu e Conceição) ido à festa de aniversário de Kilimani, a capital do distrito da Zambézia (vale lembrar, de imediato, que estávamos na cidade da Beira, capital da província de Sofala).
A princípio, enquanto nos dirigíamos para o local da festa, não sabíamos com clareza o que iríamos festejar. Conversas e mais conversas depois, descobrimos do que se tratava. Imediatamente voltei às tradições com as quais fui educado e que me servem de parâmetro e me fiz a seguinte pergunta sem qualquer resposta imediata: o que será que leva migrantes da província da Zambézia reunirem-se em festa para comemorar os 71 anos de sua capital, quando vivem em outra cidade que, por sua vez, é capital de outra província?
Chegando lá, tornou-se impossível não observar o movimento geral: cada família, com mesas devidamente demarcadas e espalhadas num grande salão, vai chegando com suas panelas, pratos, talheres, copos, bebidas e se cumprimentam efusivamente. Em pouco mais de uma hora o salão se encheu; vinhos, cervejas e refrigerantes foram sendo abertos, alguns discursos foram sendo proferidos (sempre realçando a presença dos “naturais e amigos da Zambézia que aqui trabalham e vivem em paz na cidade da Beira”) e a maravilhosa culinária vai sendo oferecida aos amigos – se entendi direito todos têm acesso às mesa de todos e, por isso mesmo, enquanto alguns se deslocam pelo salão, com um prato nas mãos e se auto servido da culinária disponível, outros se deslocam com travessas e panelas oferecendo as delícias que trouxeram de casa.
Aos poucos a música, que segundo me informaram era originária da Zambézia, vai contagiando as mulheres e elas se dispõem em círculo para dançar. Os homens se achegam em menor número e algumas músicas depois. Parecem mais tímidos... 
A festa toma conta do ambiente. Kilimani aniversaria na cidade da Beira e, como um mantra, a paz é realçada para aqueles que, zambezianos ou amigos da Zambézia (comecei a imaginar que nossa presença naquela festa já nos colocava, perante todos, na condição de amigos daquela província em que nem mesmo chegamos a conhecer), trabalham e vivem na capital da província de Sofala.
O realce me chama a atenção e, se bem compreendo, ao mesmo tempo que recepciona, abraça, aconchega, lembra que zambezianos não são da Beira e ambos os lados reafirmam identidades ancestrais que, ao realçar a paz, definem a assunção da diferença.
E foi em meio àquela alegria toda que passamos horas de verdadeiro deleite para os olhos (as vestes coloridas das mulheres formam um espetáculo à parte), para a gula (lembro-me bem de uma espécie de purê feito à base de feijão, das patas de caranguejo envolvidas em folhas de mandioca, do frango grelhado em leite de coco e de alguns caramujos pequenos que são coletados nos mangues), para os ouvidos (onde a música e o som das falas alegres enchiam o ambiente) e dali voltamos para a pousada trocando impressões sobre o evento, as quais se tornaram o ponto de partida para este texto.
Que elementos conceituais envolvem tal experiência? Para explicá-las volto à fala de Suluda, onde ele realça a diferença entre as línguas com as quais se pensa e a língua com que se fala, e me confronto com as multiplicidades de referências que se articulam em diferentes processos de identificação cultural e política – onde a família, o clã, a tribo, a ancestralidade enfim, definem alianças, compromissos, ajustes de contas, correlações de forças – enquanto a noção de que existe um Estado Nacional denominado Moçambique reúne partidos, ministérios, governos provinciais e municipais e matriciam o formato das relações internas com os demais países e definições do capitalismo global.
É nesse contexto que uma outra variante vai se consolidando: a dimensão do urbano. Que tradição tão forte pode ter uma cidade de 71 anos para reunir seus filhos em outro lugar do país numa festa tão cheia de alegrias (obviamente que este é o olhar daquele que não pertence diretamente ao processo)? Sob os parâmetros com os quais cresci e fui educado, diria que absolutamente nenhum. Mas ali os meus significados parecem ter pouco ou nenhum valor. Trata-se de juntar pessoas sob justificativas e condições identitárias que envolvem o Estado (e suas cidades, províncias, capitais) e as relações étnicas e seus referenciais de solidariedade, resistência, familiaridade que se expressam na música, na dança, na culinária, na língua (das conversas e não dos discursos).
Alguns dias depois, conversando e discutindo projetos de pesquisa com Raimundo Mulhaisse  (no momento responsável por um dos centros de pesquisa pertencentes à Universidade Pedagógica) um tema veio à baila e me obrigou a retomar toda a reflexão: tratamos do movimento geral que, iniciado com a independência, vai definindo a dinâmica vivida, por tantos e tão indefinidos moçambicanos, entre as aldeias e as cidades.
Samora Machel, em busca da construção de uma política pública capaz de atingir a parcela de pessoas que viviam em aldeias espalhadas, distantes uma das outras e relativamente pequenas, estimula a formação de aldeias comunais e o desenvolvimento da urbanização. Acontece que tal processo, com a guerra, juntou pessoas mas não uniu recursos. Mais que isso, desagregou relações que no espalhamento territorial das aldeias eram cotidianas, mas na reunião  “comunal” reduziram o poder das mulheres, tirando-lhes o controle da cozinha e da machamba (roçado) e, com isso, redefiniram pactos societários milenarmente construídos.
Com o fim da guerra, parcelas dessas populações voltam para a beira dos rios, mas, agora, como produtores de mercadorias (como os produtores de carvão e de blocos de construção), provocando a aceleração da destruição da mata e o assoreamento dos rios.
Enquanto Raimundo Mulhaisse me explicava o fenômeno veio-me à memoria o trabalho de meu ex-aluno Canda, quando nos mostrou que, em algumas tribos do sul, os pequenos jovens são levados, no período das férias de verão, para a experiência de se tornarem adultos e, para tanto, além de escutar as histórias da tribo, experimentam relações de superação e solidariedade que devem marcar a vida de um homem digno. Ao final recebem um novo nome, aquele pelo qual deverão responder a partir de agora. Um novo batismo para deixarem de ser crianças. Vale lembrar que, na contramão do processo, o Estado já registrou aquele (agora adulto) jovem com seu nome de criança e, no retorno às aulas, o professor irá chamá-lo pelo nome de infância. Para não voltar a ser criança ele permanece em silêncio..., e está montado o quadro da confusão.
Aldeias comunais, a guerra civil, os ritos de passagem, a escola, as línguas, as migrações, as memórias, os significados: esses são, somente, alguns poucos exemplos da construção do Estado que se materializa nas relações de fundamento tribal que, ao se difundirem enquanto território, redefiniram a noção de pertencimento ou, o que é o mesmo, a geograficidade reconhecida por todos e cada um.
Façamos, agora, uma pequena e mais que parcial lista do que mais me chama a atenção:
·      Cahora Bassa (uma das maiores usinas hidroelétricas da África),
·      a Mozal (indústria de alumínio de capital canadense e, se não me engano, australiano),
·      a presença de chineses que usam a força de trabalho de seus presidiários para disputar o mercado da construção civil,
·      a Vale que tem se tornado uma das maiores empregadoras do país, denunciada sistematicamente pela maneira com que tem tratado os povos que insiste em deslocar ou os problemas ambientais (seja isso o que quer que seja) que vem criando;
·      iniciando nos próximos meses, dentro do projeto “pró-savana”, brasileiros envolvidos com a produção agropecuária do nosso cerrado vão tornar a parte da savana moçambicana um novo território do agro busines e das commodities,
·      sem que possa me esquecer das milhares e milhares de toras de madeira que vi armazenadas em depósitos à beira da estrada que une a capital de Sofala às principais rodovias do país.

E, reunindo os quadros que procurei descrever nos primeiros parágrafos com as imagens construídas por tais empresas ou processos, o que se observa é que os sujeitos envolvidos vão se multiplicando, vão tornando a materialidade Estado/Sociedade uma correlação de forças com ingredientes muito especiais, por vezes incompreensíveis para os moldes do que chamamos de capitalismo mas, mesmo assim, capitalismo.
Relembrando o texto de Ruy Moreira sobre o Movimento Operário e a Questão Cidade/Campo (Vozes, 1985) e das dificuldades de meus alunos em compreenderem a diferença entre subsunção formal e real e o significado de “acumulação primitiva”, tais categorias (e seus conceitos) me vêm em socorro, mas, da mesma maneira que em relação ao Brasil, também para a realidade moçambicana merecerão novos e amplos debates. A paisagem é suficientemente eloquente para não permitir que nos enganemos em fórmulas fáceis. A explicação que aprendi em meus tempos de graduação e que justificavam os dilemas africanos na arbitrariedade das fronteiras traçadas no processo colonial sempre me deixou subjacente a pergunta desconfiada: e se os colonizadores tivessem respeitado a territorialidade tribal? Os problemas seriam menores?
Quais seriam, de fato, os elementos que compõem esse aparente caleidoscópio, onde, a cada giro, um conjunto inesperado de formas enchem de cores e linhas os perplexos olhos infantis?
No último dia, horas antes de me dirigir ao aeroporto, caminhando em Maputo pela 24 de Julho, eu e Conceição fomos nos despedir da cafeteria que preencheu as nossas manhãs. Foi ali que observei, pendurados nas árvores, alguns dos tantos sacos plásticos pretos que sobrevoam pela cidade quando os ventos se tornam mais fortes. Lá estavam eles, em seus variados tamanhos, como flores pretas  que realçam e escondem folhas verdes e galhos acinzentados, lembrando que nas ruas da antiga Lourenço Marques se materializa, agora, a cidade de Maputo, capital de um país livre de Portugal – estranha apologia do capitalismo mercantil e seu cisne morto – e co-partícipe do movimento geral que só podemos chamar de imperialismo.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Os moçambicanos pensam em uma língua e falam em outra


Quando chegamos à Beira revi um ex orientando (e agora amigo) Raimundo Mulhaisse e o coordenador do programa de pós, o professor Suluda.
Lembro aqui a frase de Suluda que, imediatamente, registrei para reflexão: “os moçambicanos pensam em uma língua e falam em outra”. Eu completaria: os moçambicanos pensam em mais de trinta línguas e falam somente em uma e é com base nesse princípio que nós, os professores brasileiros, devemos entrar nas salas de aulas.
Voltas e voltas pela cidade e, novamente, me defronto com uma praça (trata-se de uma rotunda ou, como dizemos em São Paulo, de uma rotatória) que exibe majestosamente em seu centro uma garrafa da Coca-Cola. Ela não disputa com qualquer outra figura e, efetivamente, poderia ser entendida como uma homenagem, se não soubéssemos que os custos dessa “obra de arte” foram financiados pelo “homenageado”.
De qualquer maneira, como chegamos em torno das 21 horas, a cidade parecia calma ou, como se comentou naquele momento: Beira é uma cidade diurna.
O dia seguinte foi marcado pelas homenagens à cidade. Um feriado que mereceu um grande desfile na “Praça da Cidade” com direito a banda militar, danças locais, apresentação de motocicletas e desfile equestre. Enquanto o desfile circula a praça, as autoridades observam tudo com ares que só as autoridades de todo o mundo conseguem expressar ou, em outras palavras, não há surpresas em toda a movimentação.
Alguns minutos depois sentamo-nos num café e conhecemos uma dupla de arquitetos portugueses procurando caminhos que podem ser mais produtivos na África que na Península Ibérica. Como uma espécie de cacoete profissional, estavam fotografando o estilo arquitetônico que marcou a presença de um outro arquiteto português nos idos dos anos 60 e 70.
 Na manhã seguinte uma visita à orla e, estarrecido, vi-me frente a frente com o que restou de um majestoso hotel (o Grande Hotel) que, com a independência, foi invadido pelos que buscavam um lugar melhor para viver. Fico a tentar adivinhar o que será que, naqueles dias, povoou a imaginação daquele povo. O que será que significou poderem dormir naqueles quartos de hotel cinco estrelas e, como e porque, tudo foi se deteriorando, tornando-se a paisagem que marca algumas das cenas mais longas do filme “Língua Portuguesa”.
Andando às tontas pelas ruas resolvemos pedir ajuda e um senhor (de sobrenome Americano) que, surpreendentemente, nos pediu para esperar. Minutos depois tira seu automóvel da garagem e nos convida a entrar. Rapidamente nos conta que já está chegando aos 90 anos e, dirigindo sem quaisquer dificuldades, nos leva a passear pela orla, nos apresenta a praça recém inaugurada em homenagem a Samora Machel, nos conta historias e nos leva de volta ao centro.
Realmente Beira é uma cidade diurna. O movimento de pessoas e veículos é intenso por aquelas ruas. Enquanto os olhos vão se acostumando à presença dos edifícios que há muitos anos não recebem uma pintura externa, no amontoado de grades que os cercam vê-se roupas a secar e, vez ou outra, alguém lançando dos andares mais altos algo que já não mais lhe serve.
Pelas ruas chamam a atenção algumas estudantes que têm como uniforme uma saia verde que lhes toca os pés. A escola era relativamente próxima de onde estávamos e as meninas não pareciam incomodadas com a vestimenta: sentada na calçada, algumas conversavam alegremente.
Algumas horas depois as aulas começaram... mas vamos deixar esse assunto para outro dia. 

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Noticias de Maputo


No momento estou em Moçambique, mais precisamente em um hotel na avenida 24 de julho, em Maputo. Aqui já nos aproximamos das 10 horas da manhã e isso me faz lembrar que em São Paulo os relógios se aproximam das 5.
As notícias do mundo não são muito boas. Os escândalos da taxa Libor parecem buscar caminhos para as manchetes dos jornais e a crise se alonga, por entre os dentes ferozes da corrupção, enquanto a policia sul africana mata dez mineiros num confronto de resultados inexplicáveis para o pós apartheid.
Num olhar rápido sobre a cidade o que observo é que as ruas estão mais limpas, as máquinas estão presentes em algumas delas refazendo o asfalto e diminuindo o aspecto lunar das pistas de rolamento, os vendedores de rua – quase sempre insistentes – diminuíram em número e incisividade enquanto a mais nova empresa de telefonia celular parece ganhar legitimidade (uma joint-venture entre a FRELIMO e uma empresa vietnamita) pela qualidade dos serviços, os edifícios públicos vão tomando conta da paisagem tanto na cidade baixa quanto nas grandes avenidas (como a 24 de Julho e a Julius Nyerere), tornando a presença do Estado algo mais e mais ostensivo e, por fim, a quantidade de automóveis se multiplicou exponencialmente e, com eles, um trânsito caótico onde pedestres e automóveis se confundem, as calçadas tornaram-se estacionamentos públicos, os motoristas nervosos gritam, buzinam, questionam-se uns aos outros e a vida segue como se nada muito grave esteja acontecendo.
Enquanto isso, já no seu último dia, meu curso de teoria e método foi se realizando. Trata-se, sempre, de uma experiência carregada de surpresas (de ambos os lados) e muito exigente. A ausência da bibliografia e do hábito sistemático da leitura acadêmica transforma o curso em algo tenso e maravilhoso onde as emoções e a experiência de vida de cada um de nós vai se transbordando para dentro do debate. Preciso incorporar o espírito de Mia Couto para contar tal aventura e, ao que parece, ele não está disponível.
Dentro de mais alguns dias tudo vai recomeçar na cidade da Beira. Outros alunos, outras culturas, outras emoções. Não me recordo de ter experimentado, em quaisquer outros trabalhos que tenha realizado, tanto cansaço ao final de cada aula e, ao mesmo tempo, tendo produzido tanto... Trata-se da minha antinomia pessoal.