quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Para ler Althusser


Ensaios sobre a miséria da teoria – 1


Ler atentamente é um exercício necessário ao estudo e é este o esforço que me proponho a desenvolver aqui. Tal exercício tem, antes de tudo, um fundamento de caráter pedagógico e, por isso mesmo, o dedico aos meus alunos (àqueles que já o foram e, quem sabe (?), àqueles que porventura ainda terei o prazer de conhecer).   

Para ler Althusser


No chamado “campo marxista” ou, para os não iniciados, naquele grupo de intelectuais e ativistas políticos que se consideram de esquerda e, mais que isso, veem no legado da dupla Marx e Engels[1] uma fonte inesgotável de conhecimento e inspiração – e não se incomodam em tornar tal postura um verdadeiro “ato público”- encontramos, como em todos os demais agrupamentos, pessoas muito diferentes e que, na melhor das hipóteses, possuem graves e profundas divergências entre si. Em poucas palavras: o campo marxista é, como todos os demais “campos” (religiosos ou não), um agrupamento de pessoas que busca, num determinado tipo de tradição, algum tipo de identidade e, diga-se de passagem, tais identidades são extremamente importantes para se garantir aprioristicamente algum tipo de relação e realização.
Se considerarmos a importância do legado de Marx e Engels para as diferentes formas de organização política materializadas a partir da Primeira Internacional dos Trabalhadores, não teremos nenhum motivo para nos espantarmos com esse fenômeno. Em alguns momentos tais divergências tornam-se suficientemente incompreensíveis a ponto de se tornarem alvo dos humoristas (o grupo inglês Monty Pyton no filme “A vida de Brian” tornou-se um clássico) ou de textos como de Jean Baudrillard em seu também clássico: Os Partidos Comunistas. Isso tudo sem levar em consideração o fato de, no interior do “campo”, alguns grupos denunciarem-se mutuamente como traidores e, quando alguns deles se reúnem e assumem o poder de Estado, há casos em que acabam se tornando o anti-exemplo do que se poderia imaginar da prática política das esquerdas (o campo das esquerdas) e, especialmente, dos marxistas.
Bem... considerando que esses dois primeiros parágrafos não devem ser mais que uma introdução a uma espécie de resenha, eis-me envolvido, como membro auto eleito desse chamado “campo marxista”, em mais uma tentativa de identificar suas mazelas, suas fragilidades, suas dificuldades.
Iniciei este texto tendo em mente algumas observações que, me parece, devem ser realizadas em relação à edição feita pela Boitempo do primeiro volume do Capital (obviamente que estou me referindo à obra do Marx). Coisas que me (obviamente) chamaram a atenção e que em nada se relaciona à obra propriamente dita.
O melhor começo para meus comentários é, de fato, o texto que se encontra na “orelha” do livro e que foi assinado por nada menos que Francisco de Oliveira. É melhor citar primeiro e, depois, comentar:
                                    “LER O CAPITAL
Esse é o título da edição brasileira do célebre texto de Louis Althusser e Étienne Balibar, com as devidas desculpas pelo plágio proposital, pois não encontro melhor forma de recomendar este clássico de Marx aos leitores lusófonos.
Nossa (...)brava Boitempo presta um novo serviço àqueles que necessitam recorrer ao texto mais completo sobre o capitalismo.
Ela reuniu um time formidável, encabeçado por Jacob Gorender, José Arthur Giannotti e Louis Althusser...”

Parei aqui, tentando imaginar o que nos queria dizer o grande Francisco de Oliveira. Pesarosamente e provavelmente, a contribuição de Jabob Gorender a esta edição d’O Capital deve ter sido uma de seus últimos trabalhos na direção do aprimoramento do debate no “campo marxista”(Gorender faleceu em 2013), mas a presença do nome de Althusser nessa lista de “encabeçadores” é algo, de fato, a se estranhar. O pensador francês faleceu em 1990, muito antes da existência da Boitempo e, igualmente, muito antes de se imaginar a necessidade dessa nova tradução d’O Capital para o português.  Bem... Francisco de Oliveira não nos explica o porque colocou Althusser encabeçando esse time formidável e, creio, não acharemos nenhuma explicação para isso nessa edição, a não ser a possibilidade do autor do “texto de capa” ter sido mau informado.
Na nota da Edição temos uma referência que pode nos ajudar. Vejamos:
“A Boitempo Editorial agradece ao tradutor (...); aos professores (....) que se dividiram na leitura dos capítulos; a Francisco de Oliveira, Jacob Gorender, José Arthur Giannotti e Louis Althusser (por meio de seu espólio), autores dos textos de capa e de introdução (...)” (pág. 13)
Como se vê, o texto da Editora parece mais claro que o de seu convidado, aparentemente pouco esclarecido sobre o papel de cada um neste processo editorial.
De qualquer maneira, todo o equívoco deve chamar a atenção dos leitores por um simples e interessante detalhe: o que está fazendo Louis Althusser aqui? Incontáveis foram os comentadores d’O Capital. Para uma edição brasileira a presença de textos introdutórios de Francisco de Oliveira, Gorender e Giannotti é, no mínimo, o reconhecimento do legado desses homens ao pensamento de esquerda no Brasil e, sem dúvida, a mais justa das homenagens que se lhes poderia ser feita. Mas... Althusser? Ou outro qualquer comentarista para além dos diversos e diferentes prefácios do próprio Marx e de Engels (que, como se sabe, foi o organizador dos volumes finais da obra depois da morte de Marx) parece-me uma escolha que não colabora para o debate. Cada um deles, em suas diferentes épocas, representaram ou foram porta vozes de grupos que se advogaram como os mais autênticos marxistas e, assim, só faria sentido se os principais comentadores preenchessem volumes e volumes muito mais avantajados que as mais de oitocentas páginas oferecidas pela Boitempo.
De qualquer maneira, creio que vale ir um pouco mais à frente, deixando de lado este discurso genérico de estranhamento e procurando identificar o sentido de algumas proposições althusserianas no interior do esforço da “pequena e brava Boitempo”, como nos avisa Francisco de Oliveira.
Comecemos pelo título: “Advertência aos Leitores do Livro I d’O Capital” (pág. 39). Que quer nos dizer o pensador francês? Ora, ele quer nos “advertir”, não quer que leiamos a obra de Marx sem um preparo prévio, como pode fazê-lo algum leitor inocente, por assim dizer. Ele quer ser o leitor que antecede a leitura do leitor e, portanto, quer que, ao ser lido com antecedência, tornar o novo leitor uma reprodução de seus próprio parâmetros de leitura. Trata-se, portanto, de uma ótima intenção típica de alguém suficientemente petulante para se achar um leitor mais preparado que outros leitores ou, o que é mais duvidoso, alguém que imagina que pessoas completamente despreparadas e por puro acaso se debruçariam e leriam inocentemente uma obra como O Capital.   
Vejamos o primeiro parágrafo:
“O que é O Capital? É a grande obra de Marx, a qual ele dedicou toda a sua vida desde 1850 e sacrificou, em provações cruéis, a maior parte de sua existência pessoal e familiar”

Talvez valesse perguntarmos novamente: “O que é O Capital?” porque, efetivamente, a resposta de Althusser não responde à pergunta. Aparentemente estamos frente a uma obra resultado do sacrifício pessoal de um tal Karl Marx. Algo que efetivamente não nos diz se ela é interessante ou não e, mais que isso, trata as escolhas pessoais feitas pelo autor como se nelas houvesse argumentos suficientes para sua santificação – considerando, principalmente, as tais das “provações cruéis”. Fico a imaginar quantos foram os autores que dedicaram muito mais que suas vidas pessoais e familiares e tiveram como resultado obras medíocres. Para Althusser, tal como aqueles que se dedicam ao sacerdócio, Marx sacrificou sua vida pessoal e familiar. Um comentário para leigos, considerando que Marx, pelos prefácios que escreveu e o tom de seu texto, teve um grande prazer em fazer as descobertas geniais que fez e deu sentido à sua obra. Marx, efetivamente, não se entregou às forças reacionárias para redimir a humanidade de seus pecados ou para, depois de morto, ressuscitar ao terceiro dia e, até onde se pode perceber, procurou permanecer o mais distante possível de qualquer tipo de messianismo.
Continuemos:
“Esta é a obra pela qual Marx deve ser julgado. Por ela apenas, não por suas ‘obras de juventude’ ainda idealistas (...)Não por obras ainda muito ambíguas, como A Ideologia Alemã ou mesmo os Grundrisse (....)” (pág. 39)

Uma nova pergunta deve ser feita ao texto (já que ao autor não é mais possível): Marx deve ser ou está sendo julgado? E, na sequência, aproveitando o parágrafo: será que, efetivamente, seria possível afirmar que, independentemente da sua intencionalidade, a construção de uma obra como O Capital não teria de fato se iniciado quando Marx se torna um hegeliano de esquerda? Ou, será que seria possível a ele se livrar de sua própria vida para poder refletir sobre a vida?
Observe-se, ainda, que um dilema quase aritmético está embutido nesse parágrafo: em 1850 Marx tinha somente 32 anos e, considerando somente os textos mais conhecidos:
·      É neste mesmo ano que publica “A Luta de Classes na França”;
·      Em 1852 vem ao público o “Dezoito Brumário de Luís Napoleão”;
·      Em 1857 ele publica os “Grundrisse”;
·      Em 1859 o “Contribuição à Crítica da Economia Política”;
·      1865 “Salário, Preço e Lucro e, por fim, em 1867, o primeiro volume do Capital.
A cronologia coloca, de forma mais que evidente, o que as biografia de Marx apontam: pensando em termos das discussões sobre a literatura econômica existente n’O Capital, os Grundrisse, a Contribuição à Crítica e as Teorias da Mais Valia (texto elaborado entre 1861 e 1863 e publicado por Kautsky em 1905)  foram verdadeiros e exaustivos exercícios que resultaram n’O Capital. Fazem, portanto, desse ponto de vista, elementos fundamentais para a compreensão da obra – desde que não se objetive julgar o autor, mas compreender o processo de construção de sua reflexão.
Por fim, a ideia de existir um “jovem Marx” idealista, cuja obra deve ser vista como de menor importância trata de tentativas de periodização cuja fragilidade está suficientemente amadurecida na literatura disponível e de uso comum no chamado “campo marxista”.
Quanto ao texto de Althusser publicado como uma espécie de apresentação, obviamente ele vai muito além desses primeiros parágrafos. Creio que o melhor é indicar o já clássico “A Miséria da Teoria” onde o historiador inglês E. P. Thompson esmiúça o pensamento althusseriano de maneira a não deixar dúvidas quanto à miserabilidade de seus fundamentos.
Assim, que fiquem esses meus comentários como um registro daquilo que ele realmente é: um simples estranhamento quanto a uma postura editorial, o que em nenhum momento coloca em questão a qualidade do trabalho materializado nessa nova versão da obra de Marx.
A título de bibliografia, vale apontar somente os dois livros a seguir, sendo que no primeiro está publicado o comentário de Francisco de Oliveira e o texto de Althusser que comentei e, no segundo, os comentários de Thompson que, até o momento, não precisam ser revisados:
MARX, K, O Capital, Livro I,  São Paulo, Boitempo Editorial, 2013
THOMPSON, E. P. A Miséria da Teoria, Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1981.







[1] Vale lembrar que para alguns marxistas Engels era um positivista e, portanto, a dupla que estou colocando em evidência também não é uma unanimidade dentro do “campo” em questão.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Moçambique: comentários, lembranças, perspectivas...

-->
 Neste momento já me encontro muito distante das terras moçambicanas e, por isso mesmo, me pareceu mais fácil fazer os comentários que aqui vão registrados. Mais fácil porque, olhar o mundo com a distância necessária para  sobre ele refletir, sem que dele tenhamos nos apartado, nos torna mais sintéticos, mais reflexivos. O cotidiano, na sua simples e pura cotidianeidade, para que possa ser observado, sistematizado e lido tende a se tornar novelesco ou, no jargão acadêmico, fenomenológico, ou, numa outra variante mais antiga, empiricista. Acontece que, como se pode afirmar utilizando-se outro jargão acadêmico, o que sempre se busca é a construção do conceito, é o entendimento do fenomênico e, fiquemos por aqui: o fenômeno, sem a teoria, é vazio de significado.
Assim, tendo tal distanciamento em mente e tendo por objetivo encerrar meus comentários e reflexões sobre mais esta viagem a Moçambique, volto a citar o “noticias” anterior, onde um dos meus mais novos amigos da Beira, o professor Suluda, me disse que os Moçambicanos pensam em uma língua e falam em outra. Tal como naquela ocasião, todo o esforço de compreensão se volta para o desvendamento desse mundo carregado de meios termos, de ambiguidades, de rupturas que procuram rearranjar o mundo das tradições tribais rearranjando o mundo das tradições capitalistas, ocidentais, de fundamento europeu.
É para dar mais um passo nessa perspectiva que relembro mais uma vez o prof. Suluda e o fato de termos (eu e Conceição) ido à festa de aniversário de Kilimani, a capital do distrito da Zambézia (vale lembrar, de imediato, que estávamos na cidade da Beira, capital da província de Sofala).
A princípio, enquanto nos dirigíamos para o local da festa, não sabíamos com clareza o que iríamos festejar. Conversas e mais conversas depois, descobrimos do que se tratava. Imediatamente voltei às tradições com as quais fui educado e que me servem de parâmetro e me fiz a seguinte pergunta sem qualquer resposta imediata: o que será que leva migrantes da província da Zambézia reunirem-se em festa para comemorar os 71 anos de sua capital, quando vivem em outra cidade que, por sua vez, é capital de outra província?
Chegando lá, tornou-se impossível não observar o movimento geral: cada família, com mesas devidamente demarcadas e espalhadas num grande salão, vai chegando com suas panelas, pratos, talheres, copos, bebidas e se cumprimentam efusivamente. Em pouco mais de uma hora o salão se encheu; vinhos, cervejas e refrigerantes foram sendo abertos, alguns discursos foram sendo proferidos (sempre realçando a presença dos “naturais e amigos da Zambézia que aqui trabalham e vivem em paz na cidade da Beira”) e a maravilhosa culinária vai sendo oferecida aos amigos – se entendi direito todos têm acesso às mesa de todos e, por isso mesmo, enquanto alguns se deslocam pelo salão, com um prato nas mãos e se auto servido da culinária disponível, outros se deslocam com travessas e panelas oferecendo as delícias que trouxeram de casa.
Aos poucos a música, que segundo me informaram era originária da Zambézia, vai contagiando as mulheres e elas se dispõem em círculo para dançar. Os homens se achegam em menor número e algumas músicas depois. Parecem mais tímidos... 
A festa toma conta do ambiente. Kilimani aniversaria na cidade da Beira e, como um mantra, a paz é realçada para aqueles que, zambezianos ou amigos da Zambézia (comecei a imaginar que nossa presença naquela festa já nos colocava, perante todos, na condição de amigos daquela província em que nem mesmo chegamos a conhecer), trabalham e vivem na capital da província de Sofala.
O realce me chama a atenção e, se bem compreendo, ao mesmo tempo que recepciona, abraça, aconchega, lembra que zambezianos não são da Beira e ambos os lados reafirmam identidades ancestrais que, ao realçar a paz, definem a assunção da diferença.
E foi em meio àquela alegria toda que passamos horas de verdadeiro deleite para os olhos (as vestes coloridas das mulheres formam um espetáculo à parte), para a gula (lembro-me bem de uma espécie de purê feito à base de feijão, das patas de caranguejo envolvidas em folhas de mandioca, do frango grelhado em leite de coco e de alguns caramujos pequenos que são coletados nos mangues), para os ouvidos (onde a música e o som das falas alegres enchiam o ambiente) e dali voltamos para a pousada trocando impressões sobre o evento, as quais se tornaram o ponto de partida para este texto.
Que elementos conceituais envolvem tal experiência? Para explicá-las volto à fala de Suluda, onde ele realça a diferença entre as línguas com as quais se pensa e a língua com que se fala, e me confronto com as multiplicidades de referências que se articulam em diferentes processos de identificação cultural e política – onde a família, o clã, a tribo, a ancestralidade enfim, definem alianças, compromissos, ajustes de contas, correlações de forças – enquanto a noção de que existe um Estado Nacional denominado Moçambique reúne partidos, ministérios, governos provinciais e municipais e matriciam o formato das relações internas com os demais países e definições do capitalismo global.
É nesse contexto que uma outra variante vai se consolidando: a dimensão do urbano. Que tradição tão forte pode ter uma cidade de 71 anos para reunir seus filhos em outro lugar do país numa festa tão cheia de alegrias (obviamente que este é o olhar daquele que não pertence diretamente ao processo)? Sob os parâmetros com os quais cresci e fui educado, diria que absolutamente nenhum. Mas ali os meus significados parecem ter pouco ou nenhum valor. Trata-se de juntar pessoas sob justificativas e condições identitárias que envolvem o Estado (e suas cidades, províncias, capitais) e as relações étnicas e seus referenciais de solidariedade, resistência, familiaridade que se expressam na música, na dança, na culinária, na língua (das conversas e não dos discursos).
Alguns dias depois, conversando e discutindo projetos de pesquisa com Raimundo Mulhaisse  (no momento responsável por um dos centros de pesquisa pertencentes à Universidade Pedagógica) um tema veio à baila e me obrigou a retomar toda a reflexão: tratamos do movimento geral que, iniciado com a independência, vai definindo a dinâmica vivida, por tantos e tão indefinidos moçambicanos, entre as aldeias e as cidades.
Samora Machel, em busca da construção de uma política pública capaz de atingir a parcela de pessoas que viviam em aldeias espalhadas, distantes uma das outras e relativamente pequenas, estimula a formação de aldeias comunais e o desenvolvimento da urbanização. Acontece que tal processo, com a guerra, juntou pessoas mas não uniu recursos. Mais que isso, desagregou relações que no espalhamento territorial das aldeias eram cotidianas, mas na reunião  “comunal” reduziram o poder das mulheres, tirando-lhes o controle da cozinha e da machamba (roçado) e, com isso, redefiniram pactos societários milenarmente construídos.
Com o fim da guerra, parcelas dessas populações voltam para a beira dos rios, mas, agora, como produtores de mercadorias (como os produtores de carvão e de blocos de construção), provocando a aceleração da destruição da mata e o assoreamento dos rios.
Enquanto Raimundo Mulhaisse me explicava o fenômeno veio-me à memoria o trabalho de meu ex-aluno Canda, quando nos mostrou que, em algumas tribos do sul, os pequenos jovens são levados, no período das férias de verão, para a experiência de se tornarem adultos e, para tanto, além de escutar as histórias da tribo, experimentam relações de superação e solidariedade que devem marcar a vida de um homem digno. Ao final recebem um novo nome, aquele pelo qual deverão responder a partir de agora. Um novo batismo para deixarem de ser crianças. Vale lembrar que, na contramão do processo, o Estado já registrou aquele (agora adulto) jovem com seu nome de criança e, no retorno às aulas, o professor irá chamá-lo pelo nome de infância. Para não voltar a ser criança ele permanece em silêncio..., e está montado o quadro da confusão.
Aldeias comunais, a guerra civil, os ritos de passagem, a escola, as línguas, as migrações, as memórias, os significados: esses são, somente, alguns poucos exemplos da construção do Estado que se materializa nas relações de fundamento tribal que, ao se difundirem enquanto território, redefiniram a noção de pertencimento ou, o que é o mesmo, a geograficidade reconhecida por todos e cada um.
Façamos, agora, uma pequena e mais que parcial lista do que mais me chama a atenção:
·      Cahora Bassa (uma das maiores usinas hidroelétricas da África),
·      a Mozal (indústria de alumínio de capital canadense e, se não me engano, australiano),
·      a presença de chineses que usam a força de trabalho de seus presidiários para disputar o mercado da construção civil,
·      a Vale que tem se tornado uma das maiores empregadoras do país, denunciada sistematicamente pela maneira com que tem tratado os povos que insiste em deslocar ou os problemas ambientais (seja isso o que quer que seja) que vem criando;
·      iniciando nos próximos meses, dentro do projeto “pró-savana”, brasileiros envolvidos com a produção agropecuária do nosso cerrado vão tornar a parte da savana moçambicana um novo território do agro busines e das commodities,
·      sem que possa me esquecer das milhares e milhares de toras de madeira que vi armazenadas em depósitos à beira da estrada que une a capital de Sofala às principais rodovias do país.

E, reunindo os quadros que procurei descrever nos primeiros parágrafos com as imagens construídas por tais empresas ou processos, o que se observa é que os sujeitos envolvidos vão se multiplicando, vão tornando a materialidade Estado/Sociedade uma correlação de forças com ingredientes muito especiais, por vezes incompreensíveis para os moldes do que chamamos de capitalismo mas, mesmo assim, capitalismo.
Relembrando o texto de Ruy Moreira sobre o Movimento Operário e a Questão Cidade/Campo (Vozes, 1985) e das dificuldades de meus alunos em compreenderem a diferença entre subsunção formal e real e o significado de “acumulação primitiva”, tais categorias (e seus conceitos) me vêm em socorro, mas, da mesma maneira que em relação ao Brasil, também para a realidade moçambicana merecerão novos e amplos debates. A paisagem é suficientemente eloquente para não permitir que nos enganemos em fórmulas fáceis. A explicação que aprendi em meus tempos de graduação e que justificavam os dilemas africanos na arbitrariedade das fronteiras traçadas no processo colonial sempre me deixou subjacente a pergunta desconfiada: e se os colonizadores tivessem respeitado a territorialidade tribal? Os problemas seriam menores?
Quais seriam, de fato, os elementos que compõem esse aparente caleidoscópio, onde, a cada giro, um conjunto inesperado de formas enchem de cores e linhas os perplexos olhos infantis?
No último dia, horas antes de me dirigir ao aeroporto, caminhando em Maputo pela 24 de Julho, eu e Conceição fomos nos despedir da cafeteria que preencheu as nossas manhãs. Foi ali que observei, pendurados nas árvores, alguns dos tantos sacos plásticos pretos que sobrevoam pela cidade quando os ventos se tornam mais fortes. Lá estavam eles, em seus variados tamanhos, como flores pretas  que realçam e escondem folhas verdes e galhos acinzentados, lembrando que nas ruas da antiga Lourenço Marques se materializa, agora, a cidade de Maputo, capital de um país livre de Portugal – estranha apologia do capitalismo mercantil e seu cisne morto – e co-partícipe do movimento geral que só podemos chamar de imperialismo.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Os moçambicanos pensam em uma língua e falam em outra


Quando chegamos à Beira revi um ex orientando (e agora amigo) Raimundo Mulhaisse e o coordenador do programa de pós, o professor Suluda.
Lembro aqui a frase de Suluda que, imediatamente, registrei para reflexão: “os moçambicanos pensam em uma língua e falam em outra”. Eu completaria: os moçambicanos pensam em mais de trinta línguas e falam somente em uma e é com base nesse princípio que nós, os professores brasileiros, devemos entrar nas salas de aulas.
Voltas e voltas pela cidade e, novamente, me defronto com uma praça (trata-se de uma rotunda ou, como dizemos em São Paulo, de uma rotatória) que exibe majestosamente em seu centro uma garrafa da Coca-Cola. Ela não disputa com qualquer outra figura e, efetivamente, poderia ser entendida como uma homenagem, se não soubéssemos que os custos dessa “obra de arte” foram financiados pelo “homenageado”.
De qualquer maneira, como chegamos em torno das 21 horas, a cidade parecia calma ou, como se comentou naquele momento: Beira é uma cidade diurna.
O dia seguinte foi marcado pelas homenagens à cidade. Um feriado que mereceu um grande desfile na “Praça da Cidade” com direito a banda militar, danças locais, apresentação de motocicletas e desfile equestre. Enquanto o desfile circula a praça, as autoridades observam tudo com ares que só as autoridades de todo o mundo conseguem expressar ou, em outras palavras, não há surpresas em toda a movimentação.
Alguns minutos depois sentamo-nos num café e conhecemos uma dupla de arquitetos portugueses procurando caminhos que podem ser mais produtivos na África que na Península Ibérica. Como uma espécie de cacoete profissional, estavam fotografando o estilo arquitetônico que marcou a presença de um outro arquiteto português nos idos dos anos 60 e 70.
 Na manhã seguinte uma visita à orla e, estarrecido, vi-me frente a frente com o que restou de um majestoso hotel (o Grande Hotel) que, com a independência, foi invadido pelos que buscavam um lugar melhor para viver. Fico a tentar adivinhar o que será que, naqueles dias, povoou a imaginação daquele povo. O que será que significou poderem dormir naqueles quartos de hotel cinco estrelas e, como e porque, tudo foi se deteriorando, tornando-se a paisagem que marca algumas das cenas mais longas do filme “Língua Portuguesa”.
Andando às tontas pelas ruas resolvemos pedir ajuda e um senhor (de sobrenome Americano) que, surpreendentemente, nos pediu para esperar. Minutos depois tira seu automóvel da garagem e nos convida a entrar. Rapidamente nos conta que já está chegando aos 90 anos e, dirigindo sem quaisquer dificuldades, nos leva a passear pela orla, nos apresenta a praça recém inaugurada em homenagem a Samora Machel, nos conta historias e nos leva de volta ao centro.
Realmente Beira é uma cidade diurna. O movimento de pessoas e veículos é intenso por aquelas ruas. Enquanto os olhos vão se acostumando à presença dos edifícios que há muitos anos não recebem uma pintura externa, no amontoado de grades que os cercam vê-se roupas a secar e, vez ou outra, alguém lançando dos andares mais altos algo que já não mais lhe serve.
Pelas ruas chamam a atenção algumas estudantes que têm como uniforme uma saia verde que lhes toca os pés. A escola era relativamente próxima de onde estávamos e as meninas não pareciam incomodadas com a vestimenta: sentada na calçada, algumas conversavam alegremente.
Algumas horas depois as aulas começaram... mas vamos deixar esse assunto para outro dia. 

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Noticias de Maputo


No momento estou em Moçambique, mais precisamente em um hotel na avenida 24 de julho, em Maputo. Aqui já nos aproximamos das 10 horas da manhã e isso me faz lembrar que em São Paulo os relógios se aproximam das 5.
As notícias do mundo não são muito boas. Os escândalos da taxa Libor parecem buscar caminhos para as manchetes dos jornais e a crise se alonga, por entre os dentes ferozes da corrupção, enquanto a policia sul africana mata dez mineiros num confronto de resultados inexplicáveis para o pós apartheid.
Num olhar rápido sobre a cidade o que observo é que as ruas estão mais limpas, as máquinas estão presentes em algumas delas refazendo o asfalto e diminuindo o aspecto lunar das pistas de rolamento, os vendedores de rua – quase sempre insistentes – diminuíram em número e incisividade enquanto a mais nova empresa de telefonia celular parece ganhar legitimidade (uma joint-venture entre a FRELIMO e uma empresa vietnamita) pela qualidade dos serviços, os edifícios públicos vão tomando conta da paisagem tanto na cidade baixa quanto nas grandes avenidas (como a 24 de Julho e a Julius Nyerere), tornando a presença do Estado algo mais e mais ostensivo e, por fim, a quantidade de automóveis se multiplicou exponencialmente e, com eles, um trânsito caótico onde pedestres e automóveis se confundem, as calçadas tornaram-se estacionamentos públicos, os motoristas nervosos gritam, buzinam, questionam-se uns aos outros e a vida segue como se nada muito grave esteja acontecendo.
Enquanto isso, já no seu último dia, meu curso de teoria e método foi se realizando. Trata-se, sempre, de uma experiência carregada de surpresas (de ambos os lados) e muito exigente. A ausência da bibliografia e do hábito sistemático da leitura acadêmica transforma o curso em algo tenso e maravilhoso onde as emoções e a experiência de vida de cada um de nós vai se transbordando para dentro do debate. Preciso incorporar o espírito de Mia Couto para contar tal aventura e, ao que parece, ele não está disponível.
Dentro de mais alguns dias tudo vai recomeçar na cidade da Beira. Outros alunos, outras culturas, outras emoções. Não me recordo de ter experimentado, em quaisquer outros trabalhos que tenha realizado, tanto cansaço ao final de cada aula e, ao mesmo tempo, tendo produzido tanto... Trata-se da minha antinomia pessoal.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Caros amigos,
Segue o conjunto de links do que consegui gravar do XVII ENG.

O primeiro reproduz os debates que fizemos em torno do livro A Reinvenção do Espaço

http://www.mediafire.com/download.php?bbn9g9606qsh8s1

Os três seguintes se referem à mesa de encerramento do Encontro:

A fala do
Paulo Cabral
http://www.mediafire.com/download.php?8gsd71k2p12qh2e

Alexandrina
http://www.mediafire.com/download.php?fd0xt091o81pvzb

Douglas
http://www.mediafire.com/download.php?7kue3qeyi2yz0yp

Espero que possam baixar em seus computadores e ouvir com alguma clareza.


terça-feira, 17 de julho de 2012

De quando os arquitetos passam os geógrafos

http://rede.outraspalavras.net/pontodecultura/files/2012/07/carla-caffe03.jpg

Uma Esquerda de Funcionários: explicações preliminares (2a. parte)


Nesse final de semana recebi duas observações sobre os textos que tenho publicado neste blog e que me chamaram a atenção: elas me informaram que os textos são demasiadamente complexos e, até mesmo, incompreensíveis.
Fiquei tentando imaginar que razões levariam meus amigos a terem tanta dificuldade em compreender coisas que para mim são tão claras e, considerando as diferentes variáveis colocadas “sobre a mesa”, conclui que o problema está (ou os problemas estão) associado(s) ao fato dos artigos pressuporem nos leitores alguns conhecimentos prévios que, de fato, poucos possuem. São poucos porque a maior parte não pertence à minha geração, ou porque não se dedicaram a refletir junto à tradição marxista o significado do sindicalismo ou, ainda, porque não se dedicaram a desvendar o significado de Brasil... e, a cada instante, novas e mais amplas determinações vão me passando a limpo.
Não há o que lamentar. Trata-se de simples constatações. Há poucos dias, num programa da TV Cultura, tive o prazer de rever Francisco de Oliveira, uma de minhas fontes inesgotáveis de reflexão sobre o Brasil. Fiquei surpreso quando um dos jornalistas pediu-lhe que identificasse as razões para que, na fase atual de nossas reflexões acadêmicas, o Brasil tenha deixado de ser um tema. Fiquei surpreso porque, afinal, a ausência está se tornando tão importante que está se tornando presença. É preciso recolocar o Brasil na pauta (e a constatação de que ele está fora da pauta é um dos movimentos necessários para que se constate que ele já está na pauta – eis minha singela homenagem ao texto “Presença e Ausência de Henry Lefebvre). De qualquer maneira, as novas gerações estão distantes desse debate e as dificuldades na leitura desses textos bem podem ser localizadas (para além das dificuldades daquele que escreve) nessa carência generalizada.
Volta à memoria, ainda, as falas de Ruy Moreira no Encontro da AGB em Porto Alegre, onde ele lamentava que em um encontro de Geógrafos Brasileiros, em pleno ano de eleições presidenciais, o Brasil não era tema explícito na programação.
Agora, quase dois anos depois, durante o seminário em que tive o prazer de participar – ocorrido há poucos meses na PUC-SP, com a centralidade temática nos trabalhos de Ruy Moreira – chegamos a nos questionar se, de fato, o Brasil existe. A pergunta, aparentemente ingênua, carrega consigo algumas outras de profundidade abissal, e a primeira delas deverá buscar respostas nas relações entre a existência do Estado Nacional chamado Brasil e a possível existência de uma formação econômica e social identificada, de forma igualmente genérica, chamada de povo brasileiro.
Bem... deixemos tudo isso para textos que ainda deverão ser escritos. Aqui e agora, constatar a carência já nos basta, mesmo que tenha ficado para trás a resposta dada por Chico de Oliveira, pois, no final das contas, é a pergunta do jornalista que nos interessou aqui.
Estávamos nos referindo, e aqui continuaremos, aos motivos e consequência da transformação de parte considerável da militância da esquerda brasileira em funcionários de confiança na “máquina de Estado”.
Para que possamos compreender a importância do fato temos de retomar algumas leituras do significado de “esquerda” no transcorrer dos anos 60 e 70 no Brasil. Em outras palavras: quem éramos nós nos tempos da ditadura militar?
Trata-se, como sempre acontece nesses casos, de uma só pergunta com infinitas possibilidades de respostas. A expressão “esquerda” é, como todas as expressões importantes, demasiadamente polissêmica. Para evitar respostas demasiadamente simples como “esquerda é o conjunto de indivíduos que possuem ideias menos à direita que aquelas que hegemonizam o governo militar” e, por isso mesmo, deixaríamos de olhar para nós mesmos e nos colocaríamos para ser identificados pelos nossos inimigos (pode parecer estranho, mas naquela época tínhamos inimigos), vou delimitar nossa construção conceitual a alguns pontos básicos onde, creio, caberá parcelas significativas da igrejas – em movimento decrescente; parcela menos significativa do movimento sindical – em movimento crescente; e os diferentes grupamentos – clandestinos ou não – que militavam pela derrubada da ditadura, tendo como referência perspectivas de caráter marxista (latu-sensu) ou anarquista ou, ainda, no campo da social democracia e da chamada teologia da libertação.
O que, no meu entender, une a todos esses grupos no campo da esquerda, não é o fato de serem pessoas desgostosas com o governo militar, mas, muito mais que isso, por se tratar de pessoas que, de uma maneira ou de outra, militavam pela derrubada daquela ditadura e o faziam a partir de ações dirigidas a organizar a sociedade civil – em grupos de diferentes tamanhos, perspectivas, práticas políticas – criando outros mecanismos e perspectivas de poder político, centrados no esvaziamento da legitimidade social daquele governo.
Trata-se, portanto, de pessoas filiadas a diferentes ideologias que, de armas na mão ou legitimados pela condição de serem sacerdotes ou, simplesmente, porque se reconheciam como lideranças políticas em bairros, paróquias, fábricas, plantações, grupos artísticos e, nessa condição, dedicavam-se a minar a capacidade política da chamada “direita”.
Nós, a esquerda, roubávamos bancos, treinávamos para a guerrilha, dirigíamos cultos, distribuíamos hóstias,  compúnhamos e tocávamos músicas, pintávamos quadros, elaborávamos, dirigíamos e apresentávamos peças teatrais. Mais que isso, nos reuníamos nos bairros, nas favelas, nos guetos de toda ordem, além de cochicharmos nos banheiros das fábricas e das escolas ou nas filas dos relógios-ponto, enquanto outros de nós, com cara de estudantes, fazíamos discursos inflamados nas salas de aula denunciando as mazelas dos vestibulares, das misérias urbanas e agrárias ou dos vínculos indecifráveis de alguns professores com a polícia política.
Vale realçar que parte de todos nós estávamos organizados em coletivos clandestinos que definiam os parâmetros e as ações políticas que seriam desenvolvidas, enquanto outros, desconhecendo ou rejeitando tais práticas, não se furtavam em se articular socialmente um busca da construção de um outro Brasil, sem esquecer daqueles que viam nas suas ordens religiosas a maneira pela qual tornariam suas ideias as ideias de um coletivo.
Expressões como Trotskismo, Leninismo, Maoísmo, Teologia da Libertação, Revolução Cubana e tantas outras, se tornaram referência para aqueles que lutavam, uns com os outros, uns contra os outros, todos para hegemonizarem o processo de derrubada da ditadura. As fissuras entre os grupos existiram de fato, mas o certo é que foi essa a esquerda que conseguiu organizar os sindicatos, o movimento estudantil, a construção de novos partidos e tantas outras ações que, somadas ao esgotamento do projeto econômico dos militares e seus intelectuais, derrubaram e deram por encerrada a fase militarizada da violência política interna.
Muitos foram torturados, presos e/ou exilados, mas muitos outros não o foram, e o mais importante é que, de uma maneira ou de outra, a existência dessa esquerda definiu os passos que constituiriam o Brasil que hoje conhecemos.
Mas, o que será que isso significa? O que é o Brasil que hoje conhecemos?
Se não nos esquecermos que a “esquerda” como identidade genérica, é composta de diferentes leituras de mundo e que é dessa diversidade de posições que se constroem diferentes perspectivas, práticas políticas, ordenações éticas e morais e assim por diante, o fim da ditadura permitiu a todas essas leituras que amadurecessem publicamente suas posições. Alguns grupos simplesmente desapareceram (como, no caso, a organização em que militei), outros se consolidaram como partidos políticos, os movimentos pentecostais esvaziaram a esquerda religiosa e, rapidamente, dois fenômenos se agrupam numa única construção: o primeiro pode ser identificado pelo movimento que levou os militantes que se encontram espalhados pelos bairros, pelas paróquias, pelas reuniões de entidades estudantis ou sindicais a serem convocados a participar dos governos de esquerda e a tornarem suas perspectivas em proposições oficiais. Na rabeira desse processo, o sindicalismo se torna, não só juridicamente, mas igualmente como prática política, uma grande estrutura burocrática também associada aos mecanismos de financiamento e direcionamento de Estado.
Num primeiro momento, poder-se-ia imaginar que tudo ocorreu, num único momento, com todos os grupos e pessoas que cabem nesse conceito de esquerda que está aqui sendo utilizado. Seria um engano grave imaginar tal situação. Homens como Fernando Henrique Cardoso vão orquestrar esse movimento de cooptação associando-se àqueles que, de uma maneira ou de outra, consideravam ser uma esquerda legítima, e o mesmo se dará a seguir com os novos prefeitos, governadores e presidentes cujas bases políticas estão associadas diretamente aos seus históricos nessa mesma esquerda.
Cada uma dessas figura assumiu o poder apoiado por diferentes grupamentos esquerda e tem nesses grupos suas bases de apoio mais imediatas. Para pequenas prefeituras, pequenos grupos mais ou menos coesos, para grandes máquinas administrativas, amplas alianças onde, como diriam alguns guerreiros no século XIX – os inimigos de meus inimigos, são meus amigos e, portanto, nada mais simples que visitar amigavelmente a casa de Maluf, aperta-lhe as mãos e afirmar que tudo isso é feito por uma boa causa: colocar no poder da metrópole paulistana outra esquerda que não aquela que  atende pelo nome de PSDB.
Nossos funcionários são melhores funcionários que os funcionários dos outros. Essa é uma premissa que, aqui verdadeira, ali falsa, vai retirando do debate o que ele deveria ter de mais fundamental: o fato de que todos os projetos, de todas as esquerdas, não conseguiram ir muito mais além que ampliar a eficácia do modo de vida contra o qual todas nasceram, cresceram e, finalmente, se subordinaram.
Melancólico? Ainda não... só o segundo passo da discussão.