terça-feira, 22 de julho de 2014

Objetivos pedagógicos Unidade 1 Vol. 1


A primeira unidade desse volume está voltada,
particularmente, a oferecer aos alunos a oportunidade de
desenvolver os seguintes objetivos.


Construir referências

Grande parte de nossos alunos do
Ensino Médio não possui referências
culturais que lhes permita pensar a
diversidade do mundo sem se perder.

Desmistificar linearidades
Entre alunos dos últimos anos do
Ensino Fundamental, constata-se
frequentemente a presença da razão
maniqueísta, isto é, a necessidade de
separar o certo do errado, o bom do
mau e assim por diante. Cabe a nós,
professores, a árdua tarefa de lhes
oferecer exemplos significativos de
que esta razão linear nos leva, normalmente,
ao erro.


Ordenar informações
Na ordem temática desenvolvida, a
ideia é dizer quantas pessoas somos,
que mais da metade de nós vive em
cidades, mas que isso não é suficiente
para entender a confusão. Página por
página, ilustração por ilustração, as informações
vão se acumulando e cada
uma delas traz uma nova necessidade
de leitura e construção conceitual.
Um aspecto a se levar em conta nesta
e nas demais unidades é a relação
que o texto procura criar com as
ilustrações, principalmente quando
se trata de mapas. As figuras são
alvo de comentários e inferências;
mais do que isso, o desenvolvimento
dos temas é acompanhado de
diversos tipos de imagens, de forma
a garantir que as linguagens relacionadas
à dimensão espacial se

tornem cotidianas para os alunos.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Unidade 1 – Onde estão as pessoas?

Apresentação da unidade

A primeira unidade deste volume é dedicada à
construção de um grande panorama. Sem se ater
especificamente a um ou a outro tema comum aos
manuais de Geografia, a unidade parte do princípio
de que é necessário localizar aqueles que são os
mais interessados no estudo desse tipo de conhecimento,
isto é, a própria humanidade.
Como podemos ver, as variáveis são muitas:
encontramos pessoas no interior de florestas
equatoriais e de desertos imensos; vivemos sob o
domínio de temperaturas extremamente baixas,
mas isso não nos impede de nos concentrarmos
em áreas extremamente quentes. As cidades –
uma das formas mais importantes da atual organização
geográfica da humanidade – podem ser
encontradas sob a terra, sobre montanhas, à beira
dos oceanos ou cercadas por densas florestas. Os
limites são poucos e somos os únicos seres vivos
de grande porte que podem ser encontrados
em qualquer ponto do planeta (inclusive voando
pela atmosfera, navegando sobre os mares e no
interior deles, e fazendo experiências acima da
própria estratosfera).
A Unidade 1 busca mostrar determinado padrão
– comum a todos os ambientes dominados
pela humanidade –, que pode ser resumido aos
seguintes termos: a sociedade vai remodelando os
diferentes ambientes, ao se apossar deles, de tal
maneira que seus elementos originais tornam-se
domesticados, isto é, ficam sob controle e a serviço
da própria humanidade.
Outro aspecto fundamental é mostrar que sociedades
com a mesma origem, quando enfrentam
ambientes muito diferentes, transformam-se. Mas,
de qualquer forma, é praticamente impossível sabermos,
antecipadamente, como tal processo vai
se realizar.
Acontece, ainda, que sociedades de diferentes
origens, quando em contato com ambientes muito
semelhantes, tampouco se tornam sociedades semelhantes.
A relação entre os homens, os ambientes que
conquistam e aqueles que produzem não é linear.
O conjunto de fatores que influenciam a constituição
das geografias de cada lugar é praticamente infinito
e, portanto, é preciso estudá-los das mais diferentes
maneiras, levando em consideração os aspectos
mais importantes na definição de cada uma delas.
É assim que se procurou mostrar as diversas
redes que articulam a Geografia contemporânea,
tendo as cidades como o exemplo mais importante
e determinante. A partir delas, os exemplos se multiplicam
e atestam a diversidade – profundamente
articulada – com que os ambientes agrários, ou
mesmo aqueles de sociedades não urbanas, constituíram-
se nas paisagens.
Como em todas as demais unidades, três complementos
oferecem novas referências de leitura para os
estudos geográficos. A seção Pausa para pesquisa
desta unidade aborda o rock para tratar das influências
do universo urbano-industrial na produção e difusão
desse gênero musical. Com base em elementos
comuns a um quarto de adolescente, a seção problematiza
temas como o consumo, a produção cultural
nas redes urbanas e sua distribuição geográfica.
Na seção Outros olhares, entrevistamos um ex-
-estudante de Geografia da Universidade de São Paulo,
que conseguiu transformar sua paixão por viajar
em seu meio de sobrevivência. Assim, procuramos
captar nesse depoimento a experiência mais básica de
qualquer viajante que presta atenção ao que acontece
em seu entorno: o fato de não existirem dois lugares
iguais e, ao mesmo tempo, a percepção de que todos
estão interligados, criando um mundo de diversidades
e homogeneidades onde cada cultura, cada clima,
cada relevo e assim por diante se interdeterminam,
construindo o mundo como o conhecemos.
Na terceira seção, Preste atenção nos mapas,
apresentamos várias dúvidas sobre a ideia de cartografia
que podem acometer um aluno do Ensino
Médio. Colocando em pauta as diversas maneiras
possíveis de fazer um mapa, a ideia é apresentar-lhe
mais uma forma de ler o mundo e escrever sobre ele.
Por fim, cabe um comentário: nem a entrevista
nem o artigo sobre cartografia serão alvo de avaliações
colocadas no interior do livro – claro que, dependendo
de seu interesse, tudo pode ser avaliado. Lembremos
que essas duas partes finais de cada unidade, na medida
em que se inserem como complementares, não

são de uso obrigatório para o projeto geral da obra.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Apresentação do volume

 É assim como se a rocha dilatada
Fosse uma concentração de tempos
Chico Buarque, Morro Dois Irmãos



Chico Buarque de Holanda, em mais uma de suas
obras geniais, coloca-se como o “observador
externo” do Morro Dois Irmãos, na cidade
do Rio de Janeiro. Usando os recursos
que frequentemente só estão disponíveis
aos poetas, o compositor nos possibilita
observar que a “rocha dilatada” é assim
como uma “concentração de tempos”.
Deixemos de lado a beleza plástica
desses versos e nos concentremos na
razão de tê-los colocado como epígrafe
desta seção. A origem de
uma escolha assim é certo tipo
de crença: desesperada e cotidianamente,
procuramos compreender
e sistematizar o mundo
que – mesmo involuntariamente –
percebemos. Nesse esforço, a relação
entre espaço e tempo – e, portanto, a noção
de lugar – é aquela que mais nos oferece a 
sensação de pertencimento, de estarmos
no mundo e, portanto, vivos.
Assim, obviamente na minha leitura, na imponência das 
formas, o sentido de as coisas existirem como lugar 
toma conta de nossas tentativas
de olhar o mundo e, mais que isso, diz algo sobre ele.
O Volume 1 desta obra é, na verdade, uma tentativa de 
realizar esse exercício: considerar
o mundo por suas formas e, ao reconhecê-las, 
evidenciar os processos que nos possibilitam
compreendê-las como “coisas do mundo”.
Assim, o que você encontrará é uma grande 
quantidade de imagens delimitando e inspirando 
textos que querem discutir e evidenciar o conjunto 
de determinações que nos daria condições de explicar 
a geografia dos lugares.
Do ciclo das rochas à formação dos centros de alta pressão, 
das grandes correntes marítimas à distribuição
dos desertos e florestas, um grande painel de lugares, 
processos e inter-relações foi construído para que,
ao desvendarmos seus significados e as maneiras pelas 
quais se interdeterminam, tenhamos disponíveis as
ferramentas mais básicas para a construção do discurso 
geográfico, a princípio o recurso de que dispomos

para nos aproximarmos do olhar do poeta.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Os disciplinamentos da interdisciplinaridade.

Se todas as disciplinas têm uma tradição e,
dentro dessa tradição, seus conteúdos nos ensinam
como devemos organizar nossas dúvidas e
a busca de respostas, então, para que serve a interdisciplinaridade?
Será que tal prática não nos
leva, na melhor das hipóteses, à superposição de
conhecimentos, sem ordenamento, sem objetivo?
Isto é, seria a prática interdisciplinar uma fonte de
confusão conceitual, oferecendo aos alunos muito
mais um amontoado de saberes do que uma ordenação
do pensamento?
A resposta a tais perguntas vai depender, sempre,
de como praticamos a interdisciplinaridade e,
portanto, como compreendemos seu significado.
As propostas de práticas interdisciplinares surgiram
pela constatação de que as diferentes disciplinas
escolares, quando da apresentação de seus
conteúdos em sala de aula ou nos livros didáticos,
tinham a aparência de verdadeiros “pacotes fechados”
sem nenhuma relação entre si identificável pelos
alunos. Tais fragmentações se desdobrariam na
condição de que, apesar de tantos anos de bancos
escolares, os alunos receberiam seu diploma sem
ter conseguido construir um quadro minimamente
coerente do mundo. Na medida em que o aluno
dificilmente conseguiria perceber o vínculo entre
as disciplinas, o resultado seria um formando cheio
de saberes fragmentados, que dificilmente poderiam
ser utilizados fora dos bancos escolares.
O problema não é simples de resolver. Muitos foram
os caminhos trilhados, e as dificuldades obrigaram
a novas experiências. Algo, no entanto, permaneceu:
a interdisciplinaridade não se constrói pelo
embaralhamento dos objetivos pedagógicos e lógicos
contidos nas tradições das diferentes disciplinas.
Trata-se, na verdade, da possibilidade de observarmos
um mesmo fenômeno com diferentes olhares e
proporcionarmos aos nossos alunos a experiência de
transitar por diferentes discursos (e, portanto, por
parâmetros lógicos) para abordar um único fenômeno.
Com isso, mostramos, primeiramente, que ele
pode ser visto por diversos ângulos e, fundamentalmente,
que uma única experiência humana nos
provoca diferentes dúvidas, obriga-nos ao desenvolvimento
de diferentes saberes, à apropriação das
mais diversas técnicas e assim por diante.
As experiências interdisciplinares desta obra
estão, em sua totalidade, associadas a essas ideias.
Quando aprendemos mais da Química, da Física,
da Biologia ou da Literatura, das Artes, da Filosofia
e da História, temos melhores condições de aprender
Geografia. O caminho inverso é, sem dúvida,
verdadeiro. Temos, ainda, a necessidade de compreender
cada uma dessas disciplinas, porque elas
representam as diferentes dúvidas que historicamente
fomos construindo enquanto constituíamos
nossa civilização. Estudar cada uma delas é mergulhar,
profundamente, na maneira de ser e pensar
da sociedade à qual pertencemos. Isso significa
que tais identidades não podem se confundir, mas,
ao mesmo tempo, o uso dos diferentes discursos
no desvendamento de um único tema nos ajuda a
pensar e desenvolver o fato de que todos os conhecimentos
das disciplinas foram desenvolvidos pela
mesma humanidade, à qual pertencemos, e todos
eles apresentam as perguntas fundamentais, cujas

respostas nos auxiliam a entender quem somos.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Que disciplinamentos nos oferece nossa disciplina?

A Geografia é um campo do conhecimento que
tem seus fundamentos nas origens de todos os povos.
Saber onde se está e, portanto, o significado de
se estar onde se está – os perigos, as disponibilidades,
as condições de realização de objetivos – é, e
sempre será, a linha divisória entre a possibilidade
ou não de se sobreviver. Nômades ou sedentários,
caçadores coletores ou plantadores criadores, do
campo ou da cidade, com hábitos rurais ou urbanos,
no meio dos oceanos, no interior das florestas
ou no centro de uma grande metrópole, saber
onde se está e, mais que isso, identificar e realizar
os comportamentos adequados que nos possibilitam
viver em cada um dos lugares do mundo é
parte fundamental da aprendizagem para qualquer
povo, em qualquer época.
Acontece que, para reconhecermos os lugares,
temos de associar dois conhecimentos básicos: o
reconhecimento do significado das coisas por meio
de suas formas e a identificação dos processos em
que elas estão inseridas com base em suas localizações
relativas. Assim, só a título de exemplo,
poderíamos afirmar que a totalidade da população
adulta saberia diferenciar um aglomerado de areia
de uma árvore (o reconhecimento da forma apontaria
para tal evidência), mas poucos reconheceriam
seus significados no interior de uma floresta
tropical ou num deserto. Para nos localizarmos, é
preciso mais que a forma e a localização geométrica,
é preciso fazê-lo também em relação aos objetos
que coparticipam do processo a ser analisado.
O “onde” da Geografia não é o mesmo “onde” da
Geometria, mesmo que possamos afirmar, como
geógrafos, que devemos usar os conhecimentos
geométricos e reconhecer que a origem da Geometria
foi a necessidade de sistematização de conhecimentos
geográficos.
Assim, estar perto ou longe, dentro ou fora,
no Ocidente ou no Oriente, acima ou abaixo ou
ainda qualquer outra referência de localização só
pode ser efetivamente reconhecida pela Geografia
se estiver associada à identificação de um processo.
Assim, por exemplo, nós, brasileiros, estamos a
oriente do Chile, a ocidente da África, mas pertencemos
ao mundo ocidental em função de nossas
tradições culturais e econômicas, cujas raízes estão
na Europa – a qual, por sua vez, é ocidente em
função de sua posição relativa com a Ásia.
O objetivo de quem ensina Geografia, portanto,
é ajudar os alunos a sistematizar nosso sistema de
referência, procurando reconhecer, na distribuição
relativa dos objetos do mundo, o significado de estarmos
onde estamos, isto é, o “onde” individual e
coletivo da humanidade.
Para tanto, precisamos conhecer a dinâmica dos
ventos, das rochas, das fábricas e dos campos agrícolas
(só para ficar em alguns exemplos), sempre
com o objetivo de, ao reconhecermos a localização
desses objetos (e a dinâmica que os define),
conseguirmos desvendar o significado de estarmos
onde estamos. Assim, quando, na Geografia perguntamos
“onde estamos”, tal pergunta não pode
ser vazia de processualidade, pois só podemos
reconhecer nossa posição quando a associamos a
outros objetos diferentes de nós, e isso só terá significado
se tais objetos estiverem a nós associados,
por um processo que possa ser reconhecido.
Assim, conhecimentos gerados pela Geometria,
pelas Artes Plásticas, pela Química, Física, Biologia,
Sociologia e Antropologia devem, sempre, ajudar a
construir nossos conhecimentos. Isso, de fato, não
torna a Geografia uma ciência que fala sobre tudo e
tenta copiar os conhecimentos das outras disciplinas.
Voltando ao ponto de partida, vale reafirmar: todos
os conhecimentos olham para o mesmo mundo, o
que os diferencia é a dúvida que move a procura das
respostas. Nós procuramos identificar o significado
de estarmos onde estamos e devemos utilizar todo
o conhecimento disponível para responder a nossas
dúvidas. Nesse sentido, a Geografia não se confunde
com nenhuma outra disciplina, independentemente
de muitas delas falarem do mesmo assunto, sem, no

entanto, terem o mesmo objetivo.